A maioria das crianças surdas nascem em lares e famílias ouvintes que não conhecem Língua de Sinais. Muitas delas não têm a oportunidade de se desenvolver linguisticamente e aprender conceitos importantes sobre si e sobre o mundo. Não aprendem Língua de Sinais, por falta de interação nessa língua desde a tenra idade, nem português, visto que não escutam o que os familiares lhes falam. Por isso, várias crianças surdas aprenderão uma língua de comunidade apenas na escola bilíngue ou nas turmas bilíngues de surdos, uma vez que aí vivenciam experiências com trocas linguísticas efetivas.
A partir da interação linguística e da aprendizagem de uma língua na escola de surdos (no caso, duas, porque o português é ensinado na modalidade escrita), as crianças têm a oportunidade de se desenvolver social, cultural, psicológica e pedagogicamente. É muito mais que só conteúdos; é dar sentido ao mundo e a si mesmo na troca com pares infantis e adultos, em língua de sinais e através de comunicação visual, por meio de experiências de leitura do mundo, de si e do outro. Uma estratégia muito rica para esse processo é a brincadeira, o faz de conta, a possibilidade de imaginar, pensar, conversar e criar com as crianças, através da experienciação de situações pedagogicamente ricas, a construção de identidades e, no caso das crianças surdas, de forma especial, a aquisição da língua, tão importante para o desenvolvimento do pensamento.
Nesse sentido, deixo algumas sugestões de atividades que podem ser desenvolvidas com crianças surdas na escola, visando à aquisição linguística e à construção identitária.
ATIVIDADE 1: Vocabulário em língua de sinais – frutas
A maioria das escolas brasileiras, por conta do Programa de Merenda na Escola, servem frutas de sobremesa, após o almoço. Você já parou para pensar como é para a criança surda, em escolas onde as pessoas que atuam na cozinha não sabem Língua de Sinais? Expressar o que quer e o que não quer comer pode ser um desafio. Nesse sentido, jogos podem ser estratégias boas para a aprendizagem, por exemplo, de vocabulário utilizado no dia a dia pela criança, na escola. Isso ajuda na construção da autonomia, da autoestima da criança.
Outra forma divertida e simples de abordar vocabulário com as crianças na escola é a partir de coisas concretas. Por exemplo, as frutas que comem na escola ou em casa. O professor pode pesquisar com as crianças e trabalhar os sinais em Libras. Pode também preparar receitas, desenvolver brincadeiras etc. Por exemplo, a preparação de uma salada de frutas com as crianças. Pode-se trabalhar vocabulário em Libras, em Português, além de outros conhecimentos.
Vamos lá. Para preparar uma salada de frutas com as crianças, você vai precisar de:
- banana;
- maçã;
- mamão;
- laranja;
Etapas:
1) Conversar com as crianças sobre frutas. Elas sabem o que são frutas? De onde vêm as frutas? Que frutas comem na escola? E em casa? Nesse momento, seria interessante mostrar imagens de frutas e frutas de verdade também.
Obs: conversar com as crianças, em Libras, é importante, pois só através do contato com a língua é que elas podem se apropriar dela.
2) Mostrar vídeo do ciclo do vegetal, a fim de que as crianças vejam como é que nascem as frutas.
Obs: sugestão de vídeo – https://www.youtube.com/watch?v=chNwmpqSa78
3) Circular as frutas para as crianças tocarem, verem etc. Antes desse momento, importante terem lavado as mãos.
4) Após conversarem e manusearem as frutas, o professor poderá preparar a salada de frutas com a turma. Importante cuidado especial com a faca, que deve ser sem ponta de ficar longe do alcance das crianças.
Obs: uma dica é fotografar o processo, para depois criar um mural com as crianças sobre a experiência vivida e com a foto delas com as frutas e os sinais de cada uma.
ATIVIDADE 2: Vocabulário em Libras – cores
Algo importante a ser considerado com crianças ouvintes e, sobretudo, com crianças surdas, é a continuidade. As crianças precisam desse processo para que possam construir seus percursos formativos de modo mais efetivo. Não se pode trabalhar um tema em uma ou duas aulas e achar que ele está esgotado. Por isso, uma atividade, ação pedagógico não deve ser realizado e logo esquecido. A fim de exemplificar possibilidades deste movimento, esta atividade pode ser desdobramento da anterior, sobre as frutas. Nesse caso, o professor precisará:
- imagens de frutas;
- ficha com cores e seus sinais (os sinais das frutas podem ser facilmente baixados na internet). Considerando que a brincadeira é eixo estruturante da prática pedagógica na Educação Infantil, a proposta é que as crianças possam brincar. O professor pode apresentar as imagens das frutas na roda de conversa, remetendo-se à experiência da salada de frutas. Pode retomar os sinais das frutas e perguntar por suas cores.
Após este momento, pode brincar com as crianças de jogo da memória: apresenta uma imagem de fruta e elas têm de levantar a ficha da respectiva fruta.
ATIVIDADE 3: Eu e meu corpo
Conhecer o próprio corpo é uma aprendizagem importante. Para fazer isso de forma lúdica com as crianças, você precisará:
- papel grande;
- tinta guache;
- canetinha.
Etapas:
– Roda de conversa sobre o corpo com as crianças (elas conhecem seu corpo? E suas partes?);
– Desenho da silhueta das crianças no papel;
– Pintura da silhueta.
Desenvolvimento:
Trata-se de uma atividade lúdica e interativa. A mesma pressupõe a conversação ou comunicação constante com as crianças. Levar um boneco grande para a roda, a fim de explorar as partes dos corpos de modo visual é interessante. O professor pode utilizar o próprio corpo como exemplo e pedir que as crianças façam o mesmo. Esse momento pode deflagrar uma brincadeira que as crianças adoram: o professor sinaliza e elas têm de tocar na parte correspondente do corpo.
Após este momento, o professor pede que as crianças deitam no chão, sobre o papel, e contornam suas silhuetas. Depois, conversam sobre o desenho e as partes do corpo. Por fim, tendo preparado a tinta guache e rolinhos, pinta a mão das crianças para que preencham suas silhuetas.
Obs: observem que o conteúdo “cores” pode ser abordado aqui também, além de muitos outros.
Tiago Ribeiro, Doutor em Educação. Professor e Coordenador Pedagógico de Produção de Materiais Didáticos do Departamento de Educação Superior do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Autor, com Osilene Cruz, do livro “Práticas pedagógicas no ensino da língua portuguesa escrita para surdos – desafios, experiências e aprendizagens” e, com Aline Gomes da Silva, do livro “Leitura e escrita na educação de surdos”. Ambos publicados pela Wak Editora.