Vivemos em uma era em que a tecnologia ocupa lugar central em nossas vidas. E quando o assunto é Educação, especialmente de pessoas com deficiência (PCD), surgem perguntas que desafiam pais, educadores e especialistas: quando o uso de telas é benéfico e quando se torna prejudicial? Como equilibrar inovação, inclusão e desenvolvimento saudável?
A resposta está no uso intencional e mediado da tecnologia. Estudos recentes demonstram que o tempo excessivo diante de dispositivos digitais pode prejudicar o sono, o desenvolvimento emocional e as habilidades sociais, especialmente entre crianças neurodivergentes. No entanto, quando bem conduzido, esse mesmo tempo de tela pode ser um aliado poderoso na promoção da autonomia, comunicação e aprendizagem.
Tecnologia que transforma vidas
Na prática clínica e educacional, tenho acompanhado avanços notáveis. Ferramentas digitais como apps de alfabetização multissensorial, softwares com recursos visuais adaptáveis e tecnologias de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) estão mudando a forma como crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), dislexia, TDAH ou deficiência intelectual aprendem e se expressam.
Esses recursos permitem que a criança participe de atividades educativas com mais engajamento e menos frustração, promovendo desenvolvimento de habilidades acadêmicas, sociais e emocionais. A personalização oferecida por essas tecnologias é um divisor de águas.
Currículos que respeitam o ritmo de cada um
A Inteligência Artificial (IA) desponta como uma aliada na criação de percursos pedagógicos personalizados. Softwares educacionais com IA conseguem adaptar conteúdos conforme o desempenho do aluno, fornecendo desafios e suportes sob medida. Essa inteligência permite que pedagogos construam planos individualizados, respeitando a curva de aprendizagem de cada estudante com deficiência.
Famílias: mediação ativa e afetiva
Um temor comum entre famílias é que a tecnologia cause isolamento. Porém, quando usada com propósito e supervisão, ela pode ser um instrumento de conexão e inclusão. Atividades digitais compartilhadas, jogos colaborativos e interações mediadas por apps de comunicação são formas de promover laços, ampliar o repertório social e reduzir o sentimento de exclusão.
O maior desafio? A formação dos professores.
Apesar do avanço tecnológico, o maior gargalo ainda é humano: muitos docentes não recebem formação adequada para lidar com a diversidade mediada por tecnologia. A inclusão digital exige mais do que acesso a dispositivos — requer competência pedagógica, sensibilidade e atualização constante. Investir na formação docente é urgente se queremos uma educação verdadeiramente inclusiva.
Cuidado com a sobrecarga sensorial
Outro ponto de atenção é a sensibilidade aumentada de muitas pessoas neurodivergentes a estímulos digitais. É fundamental ajustar brilho, som, tempo de exposição e complexidade visual dos recursos. A sobrecarga cognitiva pode ser evitada com pausas planejadas, ambientes tranquilos e uso equilibrado da tecnologia.
Gamificação como ferramenta pedagógica
A gamificação, quando bem desenhada, é uma potente ferramenta para desenvolver funções executivas como memória, foco e planejamento — áreas desafiadoras para muitos estudantes com deficiência. Jogos educativos com fases, recompensas e feedbacks imediatos aumentam o envolvimento e criam um ambiente de aprendizagem lúdico e eficaz.
O que vem pela frente
Em palestras e eventos internacionais, tenho observado tendências promissoras ainda incipientes no Brasil: realidade virtual para treino de habilidades sociais, IA emocional que reconhece níveis de estresse e plataformas híbridas que integram o melhor do físico e do digital.
São caminhos possíveis para um futuro em que a inclusão não seja apenas discurso, mas prática cotidiana nas salas de aula.
Conclusão: O desafio do nosso tempo é usar a tecnologia com propósito, consciência e afeto. O futuro da educação inclusiva não será definido pelas telas, mas pelas mãos que as conduzem com sabedoria. Que saibamos escolher sempre o caminho do cuidado, da ciência e da empatia.
Referências:
PMC (PubMed Central) – Uso de telas e desenvolvimento infantil
Estudo sobre os impactos do tempo de tela na infância e suas implicações no desenvolvimento neurológico e social.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC12264844/
Brazilian Journal of Health Review – Uso de telas por crianças com TEA
Análise sobre os efeitos do uso de dispositivos digitais em crianças com autismo.
https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/62742
Bahiana de Psicologia – Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)
Estudo sobre a aplicação de tecnologias de CAA em crianças com deficiência.
Por Juliana Santos – Palestrante, pedagoga, psicopedagoga e especialista em uso consciente de telas digitais