3 de fevereiro de 2026
EMILIO

Quando se fala em inclusão de pessoas com deficiência, o pensamento costuma ir direto para leis, normas técnicas e grandes obras de acessibilidade. Esses avanços são fundamentais e precisam ser defendidos. No entanto, eles não garantem, sozinhos, que a inclusão aconteça de forma plena. A inclusão real começa nos encontros cotidianos, nas relações humanas e nas escolhas aparentemente simples que fazemos todos os dias.

É no ambiente escolar, no local de trabalho, no transporte público, nas interações familiares e nas relações sociais que a inclusão se concretiza ou se perde.

Inclusão é convivência, não concessão

Ainda é comum que a inclusão seja vista como concessão ou gentileza. Essa visão coloca a pessoa com deficiência em uma posição de dependência, como alguém que precisa ser autorizado a participar. Incluir não é permitir, é reconhecer. É compreender que a diversidade humana faz parte da sociedade e que a convivência com as diferenças é um direito coletivo.

Quando uma pessoa com deficiência é tratada como exceção, o ambiente continua excludente, mesmo que pareça adaptado.

Barreiras invisíveis no dia a dia

Nem toda barreira é visível. Muitas das dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência estão ligadas a atitudes, expectativas e comportamentos sociais. A pressa excessiva, a impaciência, a infantilização e a tendência de decidir pelo outro criam obstáculos tão limitantes quanto escadas sem rampas.

A acessibilidade atitudinal se manifesta quando há abertura para ouvir, respeito pelo ritmo de cada pessoa e disposição para ajustar práticas já naturalizadas. Perguntar antes de ajudar, aceitar respostas diferentes do esperado e permitir autonomia são atitudes simples, mas transformadoras.

O papel da linguagem na inclusão

A forma como falamos reflete a forma como pensamos. Termos capacitistas e expressões corriqueiras carregam visões de mundo que associam deficiência a incapacidade, sofrimento ou inferioridade. Mesmo quando não há intenção de ofensa, o impacto permanece.

Adotar uma linguagem respeitosa não significa vigiar cada palavra, mas estar disposto a aprender, rever hábitos e reconhecer erros. A linguagem inclusiva contribui para a construção de ambientes mais seguros, onde as pessoas não precisam se justificar o tempo todo.

Pequenas ações que ampliam o pertencimento

Muitas práticas inclusivas não exigem recursos financeiros, apenas atenção e sensibilidade. Ajustar o tempo de uma atividade, adaptar a comunicação, oferecer informações acessíveis, descrever conteúdos visuais, evitar exposições desnecessárias e garantir participação efetiva são atitudes que fortalecem o sentimento de pertencimento.

Quando a pessoa com deficiência percebe que suas necessidades são consideradas sem constrangimento, a relação deixa de ser marcada pela exclusão e passa a ser baseada no respeito.

Inclusão é processo contínuo

Não existe inclusão perfeita ou definitiva. Trata-se de um processo em constante construção, que exige escuta, revisão de comportamentos e disposição para mudar. Errar faz parte, desde que haja abertura para aprender e corrigir.

Mais do que perguntar o que falta para a pessoa com deficiência, é necessário refletir sobre o que ainda falta transformar nas estruturas sociais e nas atitudes individuais.

Um compromisso coletivo

A inclusão não é responsabilidade exclusiva do Estado, da escola ou das empresas. Ela depende da participação de todos. Cada gesto cotidiano contribui para reforçar barreiras ou para derrubá-las.

Promover inclusão é assumir um compromisso ético com a convivência, reconhecendo que uma sociedade verdadeiramente inclusiva não se constrói apenas com obras e discursos, mas com relações humanas mais justas, atentas e respeitosas.

Emílio Figueira é jornalista, psicólogo, psicanalista e escritor, com 40 anos de experiência na área da inclusão.  Autor dentre outros, dos livros “Psicologia e Inclusão” e “As Pessoas Com Deficiência Na História Do Brasil”.

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