Fala-se muito em inclusão quando o assunto é escola, trabalho, mobilidade urbana e acesso a direitos básicos. Mas existe uma dimensão da inclusão que ainda provoca desconforto, silêncio e resistência: o afeto. Quando o tema é namoro, desejo e sexualidade, a presença da pessoa com deficiência continua sendo vista como exceção, tabu ou problema. É nesse território invisível que atua o capacitismo afetivo.
Capacitismo afetivo é o conjunto de crenças, atitudes e práticas que limitam, controlam ou deslegitimam a vida amorosa e sexual das pessoas com deficiência. Ele não aparece apenas na rejeição explícita, mas também em gestos aparentemente cuidadosos, comentários “bem-intencionados” e olhares que negam o direito básico de desejar e ser desejado.
O Corpo Fora do Padrão e o Medo Social
A sociedade construiu um ideal de corpo associado à eficiência, autonomia plena, juventude e desempenho. Corpos que fogem desse padrão, seja por deficiência física, sensorial, intelectual ou psicossocial, são vistos como falhos, incompletos ou frágeis. Quando esse olhar invade o campo do afeto, o resultado é a exclusão silenciosa.
Muitas pessoas não conseguem imaginar um relacionamento amoroso com alguém com deficiência não porque falte empatia, mas porque foram educadas a associar amor a normalidade física. O desconforto não é com a pessoa, mas com o que ela representa: a lembrança de que o corpo humano é vulnerável, finito e imperfeito.
Infantilização: Quando o Desejo é Negado
Uma das faces mais comuns do capacitismo afetivo é a infantilização. A pessoa com deficiência é tratada como alguém que não amadurece emocionalmente, que não compreende relações complexas ou que precisa ser protegida de experiências afetivas.
Esse olhar produz frases como:
- “Ela não entende essas coisas.”
- “Isso só vai machucar.”
- “Ele não precisa disso.”
Na prática, o desejo é negado, a curiosidade é reprimida e o namoro é visto como risco, não como parte natural da vida. O resultado é uma geração de pessoas que cresce sem referências afetivas, sem educação sexual adequada e sem autorização simbólica para amar.
Fetichização: Quando o Corpo Vira Objeto
No extremo oposto da negação está a fetichização. Aqui, o corpo com deficiência não é ignorado, mas transformado em objeto exótico de desejo. A pessoa deixa de ser sujeito e passa a ser experiência, curiosidade ou fantasia.
Esse tipo de relação é igualmente violento, pois:
- reduz a pessoa à sua deficiência;
- ignora sua individualidade;
- cria relações assimétricas;
- reforça estigmas em vez de desconstruí-los.
O capacitismo afetivo não se manifesta apenas na recusa do amor, mas também na forma distorcida de desejar.
Entre o Cuidado e o Controle
Outro ponto central do capacitismo afetivo é a confusão entre cuidado e controle. Em muitos contextos familiares, o namoro da pessoa com deficiência é visto como algo a ser autorizado, supervisionado ou impedido. A autonomia emocional é tratada como perigo.
Pais, responsáveis e até profissionais de saúde acreditam estar protegendo quando, na verdade, estão impedindo a construção de experiências fundamentais para o desenvolvimento humano: frustração, descoberta, intimidade, escolha e limites.
O afeto, nesse contexto, deixa de ser direito e passa a ser concessão.
O Impacto Psicológico da Exclusão Afetiva
Viver em um mundo que constantemente sugere que você não é desejável produz marcas profundas. O capacitismo afetivo não atinge apenas as relações externas, mas se instala internamente, moldando a forma como a pessoa se percebe.
Muitos adultos com deficiência relatam:
- medo de se aproximar de alguém;
- sensação de não merecer amor;
- autossabotagem em relacionamentos;
- dificuldade de reconhecer o próprio desejo.
Esse é o capacitismo internalizado: quando o preconceito social é absorvido como verdade pessoal.
A Inclusão Que Ainda Falta
Falar em inclusão sem abordar o afeto é manter uma inclusão incompleta. Rampas, leis e acessibilidade são fundamentais, mas não substituem o direito à vida emocional plena. Amar, ser amado, errar, escolher e terminar relações fazem parte da experiência humana.
Incluir afetivamente significa:
- reconhecer a sexualidade das pessoas com deficiência;
- garantir educação sexual acessível;
- respeitar escolhas afetivas;
- combater estereótipos culturais;
- ouvir as próprias pessoas com deficiência.
Amar Corpos Fora do Padrão é Aprender a Ver Diferente
Desconstruir o capacitismo afetivo exige mais do que boa vontade. Exige revisão profunda de valores, medos e crenças. Amar corpos fora do padrão não é um gesto de heroísmo, nem de caridade. É apenas reconhecer humanidade onde ela sempre existiu.
Enquanto a sociedade continuar tratando o afeto das pessoas com deficiência como exceção, a inclusão será sempre parcial. O verdadeiro avanço acontece quando o amor deixa de causar estranhamento e passa a ser visto como aquilo que sempre foi: parte essencial da vida.
Emílio Figueira é jornalista, psicólogo, psicanalista e escritor, com 40 anos de experiência na área da inclusão. Autor dentre outros, dos livros “Psicologia e Inclusão” e “As Pessoas Com Deficiência Na História Do Brasil”.