A declaração machista do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, após a derrota por 2 a 1 para o São Paulo pelas quartas de final do Campeonato Paulista, continua gerando repercussão e se transformou em um exemplo recente do desafio enfrentado pelo futebol brasileiro no combate à discriminação contra a mulher. O episódio reforça um debate essencial: sem responsabilização efetiva, o machismo e a misoginia tendem a se repetir dentro e fora dos estádios.
Logo após a eliminação do Bragantino, o jogador criticou a arbitragem da partida comandada por Daiane Muniz e afirmou que a Federação Paulista não deveria “colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”, associando o desempenho da árbitra ao fato de ser mulher.
A declaração teve repercussão imediata e foi classificada como machista por especialistas e jornalistas esportivos, reacendendo o debate sobre a presença feminina no futebol profissional — seja como árbitras, dirigentes ou profissionais da imprensa.
Punição e resposta institucional
Diante da repercussão negativa, o Red Bull Bragantino anunciou punições disciplinares ao atleta. O clube aplicou multa de 50% do salário e afastamento de uma partida, além de destinar o valor da penalidade a uma organização que atende mulheres em situação de vulnerabilidade.
A diretoria também repudiou publicamente a declaração e reforçou que nenhuma frustração esportiva justifica atitudes discriminatórias, posição vista por especialistas como um passo importante, mas ainda insuficiente para enfrentar um problema estrutural.
O jogador pediu desculpas posteriormente e procurou a árbitra para se retratar, alegando que falou sob o impacto emocional da derrota.
Apesar das desculpas, o episódio continuou sendo discutido como exemplo de preconceito de gênero no esporte.
A crítica das jornalistas esportivas
A repercussão ganhou força especialmente entre jornalistas mulheres. Em artigo publicado após o episódio, a comentarista Joanna de Assis afirmou que casos como esse demonstram que, mesmo em 2026, as mulheres continuam sendo alvo de desconfiança profissional apenas por causa do gênero.
Segundo a jornalista, situações assim revelam um ambiente onde ainda é comum “aliviar a dor de um homem às custas da reputação das mulheres”, uma prática que evidencia o machismo persistente no futebol.
Para profissionais da imprensa esportiva, o problema vai além de um comentário isolado: trata-se de uma mentalidade que historicamente tenta excluir mulheres de espaços tradicionalmente masculinos.
Um problema estrutural
O caso ganhou repercussão nacional e internacional e foi apontado por analistas como mais um episódio de sexismo no futebol brasileiro.
Especialistas em igualdade de gênero destacam que declarações desse tipo reforçam estereótipos que questionam a competência profissional das mulheres e ajudam a perpetuar a desigualdade.
A presença feminina no futebol brasileiro cresce há décadas — como árbitras, atletas, jornalistas e dirigentes —, mas episódios de discriminação mostram que a igualdade ainda enfrenta resistência cultural.
Combate ao machismo exige responsabilização
O caso Gustavo Marques evidencia que o combate ao machismo não pode depender apenas de pedidos de desculpas. A punição aplicada pelo clube foi vista como um gesto importante, mas especialistas defendem medidas educativas e disciplinares permanentes.
Organizações ligadas aos direitos das mulheres e profissionais do esporte defendem que a responsabilização clara é fundamental para evitar novos episódios de misoginia.
Sem punição efetiva, atitudes discriminatórias tendem a ser tratadas como meros “desabafos de cabeça quente”. Com responsabilização, passam a ser reconhecidas pelo que são: violações de respeito e igualdade.
Mais do que um episódio isolado, o caso mostra que a luta contra o machismo no esporte ainda é necessária — e que o futebol, como fenômeno social de grande alcance, tem papel decisivo na construção de uma cultura de respeito às mulheres.