Dos insultos históricos à onda de ataques contra Vinícius Júnior, o esporte mais popular do mundo ainda luta contra o preconceito
O futebol sempre foi apresentado como um espaço de integração social e diversidade. Dentro de campo, jogadores de diferentes origens constroem histórias que emocionam milhões. Fora dele, porém, o esporte convive com um problema antigo e persistente: o racismo. Apesar das campanhas institucionais e das punições mais severas adotadas nos últimos anos, episódios discriminatórios continuam a ocorrer em estádios de todo o mundo — muitas vezes tendo atletas negros como alvo direto.
Nos últimos anos, poucos jogadores simbolizam essa luta de forma tão visível quanto o brasileiro Vinícius Júnior, que se tornou o rosto contemporâneo do combate ao racismo no futebol internacional.
Um problema histórico
O racismo acompanha o futebol desde o início do século XX. Jogadores negros enfrentaram resistência para entrar nos clubes e, mesmo depois de consagrados, continuaram sendo alvo de ofensas.
Casos emblemáticos marcaram a memória do esporte:
- Em 2014, o lateral brasileiro Daniel Alves recebeu uma banana jogada por um torcedor durante uma partida na Espanha — gesto que simbolizava um insulto racista. O jogador reagiu comendo a fruta antes de cobrar o escanteio, numa atitude que ganhou repercussão mundial.
- Em diferentes ligas europeias, jogadores negros relatam gritos imitando macacos, insultos e ameaças vindas das arquibancadas.
- Mesmo atletas consagrados já foram vítimas, mostrando que talento e reconhecimento não protegem contra o preconceito.
Esses episódios evidenciam que o racismo no futebol não é pontual, mas estrutural — repetindo padrões em diversos países e competições.
Vinícius Júnior e a nova onda de denúncias
Nos últimos anos, Vinícius Júnior passou a denunciar publicamente os episódios de racismo sofridos durante partidas, principalmente na Europa. Sua postura firme mudou o debate: o jogador deixou de aceitar os ataques em silêncio e passou a cobrar punições mais duras das autoridades esportivas.
Essa postura fez com que ele se tornasse um símbolo da luta contra a discriminação — mas também um dos jogadores mais frequentemente alvo de ataques racistas.
O episódio mais recente ocorreu na semana passada, durante uma partida da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Benfica, em Lisboa.
O caso Benfica: mais um capítulo
Durante o jogo, Vinícius denunciou ter sido chamado de “macaco” pelo jogador argentino Gianluca Prestianni, do Benfica.
O incidente aconteceu após o brasileiro marcar o gol da vitória do Real Madrid. O árbitro acionou o protocolo antirracismo e a partida foi interrompida por cerca de dez minutos.
A UEFA abriu investigação e aplicou uma suspensão provisória ao atleta do Benfica enquanto o caso é analisado.
O jogador português nega as acusações e afirma que houve mal-entendido, mas o episódio reacendeu o debate mundial sobre racismo no futebol.
Reação mundial
O caso teve repercussão imediata entre jogadores, dirigentes e entidades esportivas.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, declarou estar “chocado e triste” com o episódio e reforçou a necessidade de combater o racismo no futebol.
A entidade internacional voltou a defender:
- tolerância zero contra racismo
- aplicação de protocolos antidiscriminação
- punições esportivas e disciplinares mais duras
- possibilidade de paralisação ou encerramento de partidas
Além disso, o caso provocou manifestações de solidariedade de jogadores, treinadores e jornalistas em vários países e recolocou o racismo no centro do debate esportivo global.
Mais do que um caso isolado
O episódio envolvendo Vinícius Júnior reforça que o racismo no futebol está longe de ser resolvido. A repetição de ataques mostra que campanhas educativas e multas financeiras não têm sido suficientes para mudar comportamentos.
Ao mesmo tempo, a reação mundial indica uma mudança importante: hoje os casos são denunciados com mais rapidez, investigados com maior rigor e acompanhados pela opinião pública global.
Vinícius Júnior tornou-se símbolo dessa transformação — um jogador que se recusa a naturalizar o preconceito e que tem pressionado federações e clubes a agir com mais firmeza.
O caso mais recente ainda está sob investigação, mas já produziu efeitos importantes: punição provisória, mobilização internacional e novo debate sobre a responsabilidade das entidades do futebol.
Mais do que uma disputa esportiva, o episódio mostra que a luta contra o racismo continua sendo um dos grandes desafios do futebol mundial — dentro e fora dos estádios.