No mês de conscientização global sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), em que muitos estão voltados a fortalecer políticas públicas, reforçar a necessidade de garantia de direitos, promover o respeito e ampliar a visibilidade, torna-se essencial enfatizar a compreensão do autismo como um transtorno do neurodesenvolvimento que exige apoio contínuo, intervenções baseadas em evidências e protagonismo nas políticas públicas. Nesse contexto, é urgente falar sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias de pessoas autistas na busca por atendimento.
De acordo com pesquisas científicas, essas famílias vivenciam altos níveis de estresse, sobrecarga emocional e insegurança diante da busca por diagnóstico e tratamento. A literatura destaca que a escassez de serviços especializados, a fragmentação do cuidado e a falta de informações claras sobre direitos e fluxos de atendimento configuram barreiras significativas. Esses fatores são agravados pela insuficiência de profissionais capacitados e pela demora na oferta de terapias essenciais, como fonoaudiologia, psicologia e terapia ocupacional.
É amplamente reconhecido que a intervenção precoce em casos de suspeita de TEA é determinante para o futuro. Quando falamos em intervenção precoce, entendemos um conjunto de ações compostas por intervenções terapêuticas aplicadas nos primeiros anos de vida, geralmente entre 0 e 6 anos, aproveitando a fase de maior plasticidade cerebral. Estudos científicos evidenciam que a intervenção precoce é fundamental para o desenvolvimento da criança autista, mostrando que atrasos no início das terapias podem comprometer habilidades de comunicação, interação social e autonomia, reduzindo o potencial de ganhos funcionais ao longo da vida. Sendo assim, o tempo entre o diagnóstico e o início das intervenções não pode ficar restrito apenas a um sistema de regulação, algo meramente operacional. Deveria existir um tempo máximo de espera, para que fosse possível ao menos melhorar o prognóstico.
Neste mês de abril, em que buscamos mobilizar a sociedade para a conscientização, inclusão e respeito, gostaria de deixar uma mensagem às famílias: não acreditem em tudo o que é prometido nas redes sociais. Autismo não tem cura. No momento terapêutico, conversem com os profissionais, para que possam orientar vocês sobre como auxiliar no processo. Nunca se esqueçam de que eles são sujeitos extremamente amáveis. Abracem, beijem e sempre acreditem no potencial que existe dentro do seu filho. Ser autista é enxergar o mundo de outro ponto de vista — e quando eles se tornam protagonistas, aprendemos juntos.
Aline Bittencourt
Doutora em Ciências; Mestre em Educação; Psicopedagoga Clínica e Institucional; Especialista em TEA e AEE; Autora do livro “Autismo em Ciências. O Protagonismo de estudantes com TEA”. Será palestrante no Simpósio de Afetividade e Autismo nos dias 17 e 18 de abril de 2026 realizado pela Wak Editora.