1 de abril de 2026
Inclusão além da presença

A inclusão escolar de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda está longe de ser uma realidade plena no Brasil. Embora o acesso à escola tenha avançado nas últimas décadas, especialistas apontam que garantir matrícula e presença em sala não significa, necessariamente, inclusão de fato.

Essa é a principal reflexão trazida pela psicopedagoga Michele Joia, especialista em autismo e com formação em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), durante participação no programa Inclusão em Foco. Com experiência clínica e institucional, ela defende que o processo educacional de alunos com TEA precisa ser compreendido de forma ampla — muito além da pedagogia tradicional.

Segundo Michele, o autismo é um transtorno heterogêneo, o que significa que cada indivíduo apresenta características próprias. “Não existe um padrão único. Cada aluno tem suas especificidades, comorbidades e formas distintas de aprender, se comunicar e interagir”, explica. Questões sensoriais, dificuldades de linguagem, comportamentos repetitivos e até condições associadas, como ansiedade ou epilepsia, influenciam diretamente o desempenho escolar.

Nesse contexto, a aprendizagem não depende apenas do conteúdo oferecido, mas de um conjunto de fatores que envolvem o ambiente, o preparo dos profissionais e o suporte externo. “Não é só colocar o aluno dentro da sala. É preciso conhecer profundamente quem é essa criança, como ela reage, o que a desorganiza e o que favorece sua participação”, afirma.

A falta de formação adequada dos professores aparece como um dos principais entraves. De acordo com a especialista, a abordagem da educação inclusiva nas universidades ainda é superficial, com carga horária insuficiente para preparar o profissional para a complexidade do TEA. “O professor sai com um diploma, mas sem ferramentas práticas para lidar com situações reais em sala de aula”, pontua.

Essa lacuna impacta diretamente na relação entre educador e aluno. Comportamentos desafiadores, muitas vezes incompreendidos, podem gerar afastamento e até processos de exclusão dentro do próprio ambiente escolar — justamente o oposto do que se propõe a inclusão.

Outro ponto crítico destacado é a estrutura das instituições de ensino. Para Michele, a inclusão exige mais do que adaptações pedagógicas: envolve acessibilidade física, organizacional e, principalmente, atitudinal. Espaços adequados para regulação emocional, compreensão das estereotipias — comportamentos repetitivos comuns no autismo — e acolhimento em todos os setores da escola são fundamentais.

“O aluno com TEA precisa de um ambiente que entenda suas necessidades. Às vezes, ele precisa de um tempo, de um espaço para se reorganizar. Isso não é falta de disciplina, é comunicação”, explica.

A especialista também chama atenção para a importância do acompanhamento multidisciplinar. Terapias como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicomotricidade e intervenções comportamentais são essenciais para o desenvolvimento global do estudante. Sem esse suporte, a escola, sozinha, não consegue suprir todas as demandas.

“A inclusão só funciona quando escola, família e equipe terapêutica falam a mesma língua. Se uma dessas partes falha, todo o processo fica comprometido”, alerta.

Ao avaliar o cenário nacional, Michele é categórica: o sistema educacional brasileiro ainda não está preparado — nem na rede pública, nem na privada. No entanto, ela vê com esperança mudanças recentes nas políticas públicas, que propõem maior autonomia das escolas e um olhar mais individualizado para cada aluno.

A transição de um modelo puramente biomédico para uma abordagem biopsicossocial é, segundo ela, um avanço necessário. “Precisamos parar de olhar apenas para o diagnóstico e começar a enxergar a pessoa em sua totalidade — nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais”, defende.

Apesar dos desafios, a especialista acredita que o país está em um processo de transformação. Um caminho ainda lento, mas inevitável. “A inclusão não é algo pronto. É um movimento em construção. E exige estudo, compromisso e, principalmente, mudança de mentalidade”, conclui.

A realidade exposta revela um cenário que exige mais do que boas intenções. A inclusão efetiva de alunos com autismo passa por investimento em formação, estrutura, políticas públicas e, sobretudo, por uma mudança profunda na forma como a sociedade compreende a diversidade dentro das salas de aula.

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