1 de abril de 2026
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A inclusão escolar no Brasil, muitas vezes celebrada em discursos oficiais, vive uma contradição silenciosa dentro das salas de aula. O que deveria ser um direito garantido por lei se transforma, na prática, em um sistema que expõe fragilidades, improvisos e, em muitos casos, abandono institucional — tanto de estudantes com deficiência quanto dos profissionais que tentam sustentá-lo no cotidiano.

É nesse cenário que a voz do pesquisador Lucelmo Lacerda ganha força. Atuando na University of North Carolina at Chapel Hill, com doutorado pela PUC-SP e pós-doutorado pela UFSCar, ele não fala a partir de teorias distantes, mas de evidências científicas e da comparação direta com sistemas educacionais que conseguiram avançar onde o Brasil ainda patina.

A entrevista que você acompanha agora não é apenas uma análise técnica — é também um alerta.

Recentemente, uma decisão judicial responsabilizou uma prefeitura por não proteger uma professora agredida em contexto escolar. O caso abriu precedente, mas, como aponta Lacerda, uma sentença isolada não muda estruturas. O que pode provocar transformação real é o acúmulo dessas decisões, a formação de jurisprudência, pressionando gestores públicos a recalcular prioridades.

Porque, no fundo, o problema não é desconhecido. Ele é ignorado.

“As crises existem, mas o sistema finge que não existem”, afirma o pesquisador. Crises de comportamento, episódios de agressividade, colapsos emocionais — situações que fazem parte da realidade de muitos estudantes com deficiência, especialmente aqueles dentro do espectro autista, mas que raramente são enfrentadas com preparo técnico adequado.

O resultado é previsível: professores adoecem, alunos não aprendem, e o ambiente escolar se torna um espaço de tensão permanente.

Lacerda propõe uma abordagem baseada em três níveis: prevenção, desaceleração e intervenção em crise. No primeiro nível, todos na escola — do professor ao porteiro — deveriam ser capacitados. No Brasil, isso não acontece. No segundo, a tentativa de conter o agravamento do comportamento. No terceiro, o mais crítico, entra o manejo direto da crise, que exige formação específica e, sobretudo, respeito à dignidade do aluno.

Mas o que se vê hoje é improviso.

Profissionais de apoio mal distribuídos, professores sem treinamento e gestores mais preocupados com burocracias do que com práticas pedagógicas efetivas. Em vez de capacitação técnica, redes públicas investem em palestras motivacionais, muitas vezes desconectadas da realidade da sala de aula.

“Se trocássemos a autoajuda por treinamento baseado em evidência, em poucas semanas já teríamos impacto real”, diz.

E não se trata de soluções inalcançáveis. Segundo o pesquisador, estratégias simples — como rotinas visuais, sistemas de reforço e escolha de atividades — poderiam reduzir significativamente problemas de comportamento. O entrave não é estrutural. É cultural e técnico.

Outro ponto crítico é o modelo do Atendimento Educacional Especializado (AEE) no Brasil. Criado com a proposta de complementar o ensino regular, ele se tornou, na prática, um sistema desorganizado e pouco eficaz.

Muitos alunos são encaminhados ao AEE sem necessidade real, enquanto outros que precisam não conseguem acesso adequado. A obrigatoriedade do contraturno, determinada por normas nacionais, exclui justamente as famílias mais vulneráveis — aquelas que não têm condições de deslocamento, tempo ou flexibilidade no trabalho.

“O sistema foi desenhado para uma função específica, mas está sendo usado para tudo — e, por isso, não funciona bem em nada”, resume.

Em contraste, modelos internacionais, como o norte-americano, adotam o chamado “pull-out”, no qual o aluno sai da sala comum em momentos específicos para atendimento especializado, sem perder vínculo com a rotina escolar. Mais do que isso, o professor de educação especial atua como supervisor técnico, acompanhando profissionais de apoio e garantindo qualidade nas intervenções.

No Brasil, essa função praticamente não existe.

E talvez o ponto mais sensível da discussão esteja justamente no que poucos têm coragem de dizer: a inclusão, da forma como vem sendo implementada, pode estar caminhando para um colapso.

Não por excesso, mas por falta de qualidade.

Ao ignorar critérios técnicos, ao negar a necessidade de diferentes níveis de atendimento — da sala comum à escola especializada — o sistema cria um ambiente insustentável. Professores sobrecarregados, alunos sem suporte adequado e famílias frustradas formam um terreno fértil para discursos radicais.

“Se nada for feito, alguém vai surgir defendendo a exclusão — e encontrará apoio”, alerta Lacerda.

A solução, segundo ele, passa por um caminho mais difícil: abandonar o debate ideológico e assumir uma postura técnica. Avaliações rigorosas, formação baseada em evidência, reorganização dos serviços e responsabilização efetiva do poder público.

Porque inclusão não é apenas colocar o aluno dentro da sala.

É garantir que ele aprenda, que o professor tenha condições de ensinar e que a escola seja, de fato, um espaço de desenvolvimento — para todos.

No Brasil, essa ainda é uma promessa distante. Mas, como mostra esta conversa, não por falta de conhecimento. E sim por falta de decisão.

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