Fala-se muito em autonomia, mas pouco se compreende, de fato, como ela se constitui. No imaginário social, ser autônomo costuma ser confundido com não depender de ninguém. No entanto, do ponto de vista do desenvolvimento humano, essa ideia não apenas é equivocada, como pode ser profundamente prejudicial, especialmente quando pensamos nas pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Nenhum sujeito nasce autônomo. O ser humano chega ao mundo em condição de extrema dependência, necessitando do outro não apenas para sobreviver, mas para se constituir enquanto sujeito. Sigmund Freud já apontava que o desamparo inicial é uma condição fundante da experiência humana (FREUD, 1895). Isso significa que é justamente na relação com o outro que começamos a organizar nossas experiências, regular emoções e construir sentido para o mundo.
No caso do autismo, essa relação com o outro pode se apresentar de forma singular. Crianças no espectro frequentemente demonstram modos próprios de se comunicar, interagir e perceber o ambiente. Isso não indica ausência de vínculo, mas formas diferentes de estabelecê-lo. É nesse ponto que o papel do cuidado se torna decisivo.
Donald Winnicott afirmava que não existe desenvolvimento saudável sem um ambiente suficientemente bom, isto é, um ambiente capaz de sustentar, acolher e responder às necessidades do sujeito (WINNICOTT, 1960). A autonomia, portanto, não surge apesar do apoio, mas por meio dele. Quando uma criança encontra um ambiente previsível, sensível e consistente, ela gradualmente internaliza essas experiências e passa a agir com maior segurança.
Na psicopedagogia, compreendemos que aprender também é um processo relacional. Lev Vygotsky demonstrou que aquilo que a criança realiza com ajuda hoje, poderá realizar sozinha amanhã (VYGOTSKY, 1934). O suporte não limita o desenvolvimento, ao contrário, ele o impulsiona. A presença de um adulto que media, orienta e sustenta é o que permite à criança avançar em direção à autonomia.
No entanto, é preciso fazer uma distinção importante: apoiar não é fazer pelo outro, mas criar condições para que o sujeito possa fazer. No autismo, isso significa respeitar o tempo, os interesses e as formas de funcionamento de cada indivíduo. Estratégias como rotinas estruturadas, comunicação clara e uso de recursos visuais não são formas de controle, mas ferramentas que ampliam a compreensão do mundo e favorecem a participação ativa.
Ao mesmo tempo, é fundamental evitar a armadilha da normalização. Autonomia não significa tornar a pessoa autista igual a um padrão esperado, mas permitir que ela desenvolva seus próprios modos de existir e se relacionar. Cada sujeito tem um ritmo, uma forma de expressão e uma maneira singular de estar no mundo. Respeitar isso é condição ética essencial.
Do ponto de vista emocional, o desenvolvimento da autonomia está profundamente ligado ao sentimento de segurança. Uma criança que se sente compreendida e sustentada tende a se arriscar mais, explorar o ambiente e experimentar novas possibilidades. Por outro lado, quando há excesso de exigência ou falta de suporte, o que emerge não é autonomia, mas ansiedade e retraimento.
Por isso, afirmar que “autonomia se constrói com apoio” não é apenas um lema, mas uma verdade clínica e educativa. Apoiar é estar presente sem invadir, é orientar sem controlar, é sustentar sem impedir o movimento do sujeito. Trata-se de um equilíbrio delicado, que exige sensibilidade, escuta e conhecimento.
No contexto do autismo, essa compreensão se torna ainda mais necessária. Promover autonomia é oferecer suporte adequado, respeitar a singularidade e acreditar na capacidade de desenvolvimento de cada sujeito. Não se trata de acelerar processos, mas de acompanhar trajetórias.
Autonomia, portanto, não é o oposto de dependência. Ela é o resultado de uma dependência bem sustentada. É na presença de um outro que acolhe, compreende e media que o sujeito encontra condições para, pouco a pouco, sustentar-se por si mesmo.
Richard Stefanini Munhoz – Dr. Richard Munhoz é Psicanalista Clínico e Infantil, Especialista em Análise e Interpretação do Desenho, Psicopedagogo, Neuropsicopedagogo, Mestre e Doutor em Ciências Médicas.