A construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva passa, прежде de tudo, pela comunicação e pelo acesso ao conhecimento. Garantir que todas as pessoas possam ler, escrever e compreender o mundo ao seu redor é um compromisso coletivo. Nesse cenário, o Sistema Braille continua sendo uma ferramenta indispensável para a autonomia, a educação e o exercício da cidadania de pessoas com deficiência visual — mesmo diante dos avanços tecnológicos.
Essa é a avaliação do professor Thiago Ribeiro, doutor em Educação, orientador pedagógico e docente do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), que participou de entrevista no programa INCLUSÃO EM FOCO, destacando a importância do tema no Brasil contemporâneo.
O que é o Sistema Braille e como ele funciona
De forma simples, o Sistema Braille é um modelo de leitura e escrita tátil. Diferente do que muitos imaginam, ele não é uma língua, mas um código universal baseado em combinações de pontos em relevo que podem ser percebidos com a ponta dos dedos.
Esses pontos são organizados em células formadas por duas colunas, com até seis pontos. A partir das diferentes combinações, é possível representar letras, números e símbolos. Um mesmo conjunto pode significar uma letra ou um número, dependendo do contexto da leitura.
“O Braille é uma tecnologia de acesso à informação. Ele permite que a pessoa cega leia, escreva e compreenda conteúdos de forma independente”, explica o professor.
Por ser um sistema padronizado, o Braille é utilizado em diversos países, facilitando o acesso universal à informação.
Ferramenta essencial para autonomia
Apesar da popularização de tecnologias como leitores de tela, audiolivros e aplicativos, o especialista reforça que o Braille continua sendo fundamental — e insubstituível em muitos aspectos da vida cotidiana.
Isso porque ele garante autonomia em situações simples, mas essenciais: identificar andares em elevadores, ler informações em espaços públicos, acessar conteúdos em museus e até compreender rótulos de produtos.
Além disso, o Braille é indispensável no processo educacional. Ele permite não apenas o acesso à leitura, mas também o desenvolvimento da escrita — algo que tecnologias auditivas não conseguem substituir plenamente.
“O acesso à escuta não substitui a leitura e a escrita. São habilidades diferentes e igualmente importantes para a formação do indivíduo”, destaca.
Aprendizado exige conhecimento da língua
Um ponto importante destacado por Thiago Ribeiro é que aprender Braille não é o mesmo que aprender uma nova língua. Para utilizá-lo, é necessário que a pessoa já tenha conhecimento da língua em que está alfabetizada.
Ou seja, o sistema funciona como um código de representação. Sem esse conhecimento prévio, os pontos em relevo não fazem sentido para o leitor.
Na prática, isso significa que o ensino do Braille deve acontecer de forma complementar à educação formal, sem substituir o acesso ao conteúdo escolar.
Desafios para difusão no Brasil
Apesar da sua relevância, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para ampliar o acesso ao Sistema Braille. Entre os principais desafios estão:
- Falta de professores capacitados para o ensino do sistema;
- Escassez de materiais didáticos em Braille;
- Baixo investimento em políticas públicas de inclusão;
- Pouca presença do tema nos currículos escolares.
Segundo o professor, ainda há uma visão limitada sobre a inclusão, muitas vezes tratada como custo, e não como investimento social.
“Precisamos avançar na formação de profissionais e na construção de políticas públicas que garantam o acesso ao Braille desde a educação básica”, afirma.
Inclusão vai além da escola
Embora a escola tenha papel central na difusão do Braille, o especialista ressalta que a responsabilidade pela inclusão é de toda a sociedade.
Ele destaca, por exemplo, a importância da audiodescrição em eventos, apresentações e espaços públicos — uma prática ainda pouco difundida no país.
Outro ponto é o combate ao preconceito. Muitas pessoas ainda enxergam indivíduos com deficiência sob uma ótica de inferioridade, o que caracteriza o capacitismo.
“A pessoa com deficiência não é inferior. Ela tem características próprias, como qualquer outro indivíduo. O que precisamos é garantir condições de acesso e participação”, pontua.
Iniciativas que fazem a diferença
Apesar dos desafios, o Brasil conta com instituições que se destacam na promoção da acessibilidade. Um exemplo é o Instituto Benjamin Constant, localizado no Rio de Janeiro.
A instituição desenvolve projetos de ensino, formação e produção de materiais em Braille, além de atuar na capacitação de profissionais e na difusão de práticas inclusivas em todo o país.
Dia Nacional reforça importância do tema
Celebrado em 8 de abril, o Dia Nacional do Sistema Braille tem como principal objetivo dar visibilidade à importância dessa ferramenta e às demandas das pessoas com deficiência visual.
Para o professor, a data representa um gesto político e social relevante, ao chamar atenção para direitos que ainda não são plenamente garantidos.
“É uma oportunidade de tornar visível uma pauta que muitas vezes passa despercebida. Falar sobre o Braille é falar sobre autonomia, dignidade e acesso à informação”, conclui.