O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) ainda é um dos temas mais mal compreendidos quando o assunto é neurodesenvolvimento. Frequentemente confundido com “falta de limites” ou “má criação”, o transtorno carrega estigmas que afetam diretamente crianças, famílias e até o ambiente escolar.
Para esclarecer o tema, o Portal Incluir conversou com a escritora e neurocientista Emanoele Freitas, autora do livro Transtorno Opositivo Desafiador – Sintomas, avaliação e diagnóstico. A especialista une conhecimento técnico e vivência pessoal para lançar luz sobre um tema ainda cercado por preconceitos.
Entre a ciência e a experiência de mãe
Segundo Emanoele, a decisão de escrever sobre o TOD surgiu da própria vivência. Mãe de uma criança com o transtorno, ela relata que o desconhecimento foi, inicialmente, um dos maiores obstáculos.
“Eu precisei estudar para entender meu filho e também para me ajudar”, afirma. “Muitas vezes, o comportamento é atribuído a outras condições, como o autismo, quando, na verdade, o TOD pode ser o principal fator de impacto no desenvolvimento.”
A especialista destaca que características como dificuldade em aceitar regras, impulsividade, irritabilidade intensa e desregulação emocional vão além do comportamento considerado típico da infância.
Julgamento social agrava sofrimento familiar
Um dos pontos mais sensíveis abordados na entrevista é o julgamento social. Emanoele relata que, antes do diagnóstico, enfrentou críticas constantes sobre sua forma de educar.
“Você não sabe cuidar do seu filho. Isso é falta de limite.” Frases como essas, segundo ela, são comuns — e profundamente prejudiciais.
O resultado, muitas vezes, é o isolamento. Famílias deixam de frequentar espaços públicos, evitam encontros sociais e passam a viver sob constante estresse emocional.
Diagnóstico correto muda tudo
A especialista enfatiza que o diagnóstico adequado é determinante para o tratamento. Isso inclui avaliação clínica, análise comportamental e, em alguns casos, exames específicos para investigar possíveis alterações neuroquímicas.
“Quando tratamos a causa e não apenas o sintoma, o resultado é completamente diferente”, explica.
Ela também destaca a importância da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), especialmente no manejo de comportamentos desafiadores e no suporte às famílias.
O papel central da família
Um dos principais alertas de Emanoele é que o tratamento não deve focar apenas na criança. O chamado “treinamento parental” é fundamental.
“A criança passa uma hora na terapia, mas o restante do tempo está com a família. Se os pais não estiverem preparados, o progresso fica comprometido.”
Segundo ela, muitos casos evoluem para desgaste familiar intenso, incluindo conflitos e até separações. Por isso, orientar pais e responsáveis é parte essencial do processo terapêutico.
Escola também enfrenta desafios
No ambiente escolar, o TOD pode se manifestar por meio de recusa em cumprir tarefas, dificuldades de convivência e comportamentos agressivos. Sem preparo adequado, professores também enfrentam desgaste.
“A falta de informação ainda é um dos maiores desafios”, afirma a especialista. “Muitas vezes, o comportamento é interpretado de forma equivocada.”
Há luz no fim do túnel
Apesar das dificuldades, Emanoele reforça que é possível reduzir significativamente os impactos do transtorno.
“A luz no fim do túnel é o conhecimento. Quando a família entende o que está acontecendo e aprende a agir, os resultados aparecem.”
Ela destaca que, com suporte adequado, é possível melhorar o comportamento, fortalecer vínculos familiares e promover inclusão social.
Uma mensagem para os pais
Para famílias que estão no início da jornada, a orientação é clara:
“Respire fundo, tenha calma e não se culpe. Existe caminho, existe tratamento e existe evolução.”
Segundo a especialista, compreender limites, manter consistência e cuidar também da saúde emocional dos pais são passos fundamentais.
Por Júnior Patente