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Enfermeira e consultora alerta para os principais desafios dos primeiros dias, combate mitos sobre o leite materno e destaca que informação e apoio podem fazer diferença para mãe e bebê

A amamentação é uma das etapas mais importantes dos primeiros meses de vida de uma criança, mas também pode representar um período de dúvidas, inseguranças e dificuldades para muitas mulheres. Dor, problemas na pega, dúvidas sobre a produção de leite e falta de apoio estão entre os fatores que podem levar ao desmame precoce.

O tema foi discutido no programa Inclusão em Foco, da Mega Rádio de Vitória da Conquista, durante entrevista com a enfermeira Karlla Figueiredo, formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em UTI neonatal e pediátrica e consultora de amamentação pelo Instituto Mame bem. A profissional também atua com orientação durante a gestação, no pós-parto, no retorno ao trabalho e no processo de desmame.

Durante a entrevista, Carla destacou que o leite materno é considerado um alimento completo para o bebê nos primeiros meses de vida. Segundo ela, o aleitamento materno exclusivo deve ser mantido até os seis meses, sem a necessidade de oferecer água, chás ou sucos nesse período.

Além da nutrição, a amamentação contribui para a proteção imunológica e para o desenvolvimento da criança. O contato durante a mamada também favorece a construção do vínculo entre mãe e bebê.

Benefícios também para a mãe

Os benefícios da amamentação não se restringem à criança. Carla chamou atenção para aspectos que, segundo ela, ainda são pouco divulgados, como a redução do risco de algumas doenças para a mulher.

Entre os benefícios citados estão a redução do sangramento no período pós-parto e a diminuição do risco de doenças cardiovasculares e de alguns tipos de câncer, como os de mama, ovário e endométrio. A profissional também mencionou efeitos relacionados à recuperação do peso e ao bem-estar proporcionado pelo contato com o bebê.

A enfermeira ressaltou, porém, que a amamentação não deve ser romantizada. O processo pode ser desgastante e exige adaptação da mulher e da família, principalmente nas primeiras semanas após o nascimento.

Dor não deve ser considerada normal

Entre as principais causas de dificuldades na amamentação estão a dor e a percepção de baixa produção de leite. Carla explicou que, em alguns casos, a mulher acredita não estar produzindo leite suficiente, mas o problema pode estar relacionado à forma como o bebê está mamando.

Uma das situações mais comuns é a pega inadequada. Quando o bebê não se posiciona corretamente, podem surgir fissuras e ferimentos no mamilo, tornando a mamada dolorosa e dificultando a continuidade do aleitamento.

A especialista também alertou contra a ideia de que a mulher precisa “calejar” a mama para conseguir amamentar. Segundo ela, dor persistente deve ser investigada e tratada, e não encarada como uma etapa obrigatória do processo.

Outro sinal que merece atenção é quando o bebê permanece muito tempo no peito sem realizar uma sucção efetiva. Alterações no ganho de peso, na quantidade de urina e nas fezes e episódios de irritabilidade também podem indicar a necessidade de avaliação profissional.

“Leite fraco” é um dos principais mitos

Outro assunto abordado na entrevista foi o mito do chamado “leite fraco”. Carla explicou que a composição do leite materno não deve ser entendida como uma sequência rígida de um leite “ralo” e outro “gordo”. A eficiência da mamada está relacionada, entre outros fatores, à capacidade do bebê de realizar uma sucção adequada e extrair o leite.

A alimentação da mãe também foi discutida. Segundo a especialista, não existe uma lista geral de alimentos que todas as mulheres precisam retirar da dieta durante a amamentação. Ela citou, entretanto, a necessidade de atenção ao consumo excessivo de cafeína e destacou a importância de uma alimentação equilibrada e da hidratação.

A profissional também chamou atenção para o consumo de álcool e outras drogas, que pode representar riscos para o bebê e exige orientação de profissionais de saúde.

Pai tem papel ativo no processo

Um dos pontos de destaque da entrevista foi a participação do pai. Para Carla, o companheiro não deve ser visto apenas como alguém que “ajuda” a mulher, mas como alguém que exerce efetivamente a paternidade.

Trocar fraldas, dar banho, cuidar da criança, organizar tarefas domésticas e proporcionar momentos de descanso para a mãe são atitudes que contribuem para criar um ambiente mais favorável à amamentação.

A especialista também diferenciou o pai da chamada rede de apoio. Familiares, amigos, vizinhos e outros cuidadores podem ajudar nas tarefas do cotidiano, enquanto o pai deve assumir sua responsabilidade direta no cuidado e na criação do filho.

A falta de apoio, por outro lado, pode aumentar a insegurança da mulher. Palpites e informações sem respaldo profissional podem acabar desencorajando a mãe e contribuindo para dificuldades no aleitamento.

Saúde emocional também precisa ser observada

O período pós-parto envolve mudanças físicas, hormonais e emocionais. Segundo Carla, nos primeiros dias pode ocorrer o chamado baby blues, marcado por oscilações de humor e episódios de choro.

A atenção deve aumentar quando sentimentos de tristeza, incapacidade, ansiedade ou perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer permanecem ou se intensificam. Nesses casos, a orientação é buscar ajuda profissional.

A especialista também alertou para a comparação com imagens de maternidade publicadas nas redes sociais. Para ela, cada família possui uma realidade diferente, e a rotina apresentada na internet nem sempre corresponde às condições enfrentadas pela maioria das mães.

Retorno ao trabalho exige planejamento

Para as mulheres que precisam voltar ao trabalho, a manutenção da amamentação pode exigir uma nova organização da rotina. Carla explicou que a mãe precisa aprender a ordenhar, armazenar e oferecer o leite de forma adequada.

Ela destacou ainda a importância de conhecer os protocolos de armazenamento, preparar os utensílios utilizados e orientar previamente a pessoa que ficará responsável por oferecer o leite ao bebê durante a ausência da mãe.

O planejamento, segundo a profissional, pode começar ainda durante a gestação, permitindo que a mulher chegue ao período pós-parto mais preparada para lidar com as dificuldades.

Atividade física pode fazer parte da rotina

A entrevista também abordou a prática de atividades físicas durante o período de amamentação. Segundo Carla, exercícios podem contribuir para o bem-estar físico e emocional da mãe, desde que sejam respeitadas as condições individuais e as orientações médicas, especialmente após o parto.

A profissional recomendou que a mulher organize uma rede de apoio para que possa realizar a atividade física com segurança e destacou a importância da hidratação e da alimentação adequadas.

Banco de Leite é referência para as famílias

Em Vitória da Conquista, o Banco de Leite Humano foi citado durante a entrevista como um importante serviço de apoio às mães e aos bebês, especialmente aqueles que precisam de cuidados hospitalares.

Carla também lembrou que mulheres que possuem produção de leite suficiente podem procurar os bancos de leite para receber orientações sobre a doação. O leite materno doado pode ser destinado a bebês que necessitam desse alimento, especialmente os internados em unidades neonatais.

Além dos bancos de leite, a orientação pode ser buscada com pediatras, profissionais do Sistema Único de Saúde e consultoras de amamentação, desde que sejam profissionais capacitados e atualizados.

Informação antes do nascimento

Para Carla Figueiredo, preparar-se para a amamentação ainda durante a gestação pode fazer diferença na experiência depois do nascimento.

A recomendação é que a mulher não concentre toda a preparação apenas no enxoval e no parto. Conhecer previamente técnicas de posicionamento, pega, ordenha e cuidados com o leite pode ajudar a reduzir inseguranças no início do aleitamento.

A mensagem deixada pela enfermeira para as mães é de que dificuldades não significam necessariamente o fim da amamentação. Quando existe desejo de amamentar, buscar apoio especializado pode ajudar a identificar problemas e encontrar soluções.

“Cada gota de leite materno conta”, destacou Carla durante a entrevista, reforçando a importância de valorizar o leite materno mesmo quando a produção é pequena.

O debate ganha ainda mais relevância durante o Agosto Dourado, período dedicado à promoção, proteção e apoio à amamentação. Mais do que uma responsabilidade exclusiva da mulher, o aleitamento envolve informação, assistência profissional e uma rede capaz de acolher mãe e bebê durante uma das fases mais intensas da vida familiar.

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