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Uma criança termina rapidamente as atividades propostas, faz perguntas que surpreendem os professores e demonstra intensa curiosidade sobre temas pouco explorados em sala de aula. Outra prefere investigar assuntos de seu interesse de forma independente, apresenta soluções criativas para problemas cotidianos, mas nem sempre obtém as melhores notas ou se adapta facilmente à rotina escolar. Embora apresentem perfis diferentes, ambas podem compartilhar uma característica em comum: Altas Habilidades ou Superdotação (AHSD).
Reconhecer esse potencial constitui um desafio para a educação. Ainda é comum associar as altas habilidades exclusivamente ao desempenho acadêmico ou a resultados elevados em testes de inteligência. Entretanto, os avanços da Psicologia e da Educação mostram que o potencial humano pode se manifestar de diferentes formas, como nas Artes, na liderança, nos esportes. Além de aspectos relacionados a criatividade, a motivação e características socioemocionais. Assim, a avaliação deve contribuir para compreender como esses estudantes aprendem, quais são seus interesses, quais desafios enfrentam e como a escola pode favorecer seu desenvolvimento.
Embora tenham ocorrido avanços na legislação voltada aos estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, com destaque para a Lei nº 15.436/2026, ainda existem desafios para transformar esses direitos em práticas efetivas. Essa realidade também pode ser observada em outros contextos. Em Portugal, por exemplo, famílias de estudantes com altas habilidades têm reivindicado medidas mais efetivas para que suas necessidades educacionais sejam contempladas no contexto da educação inclusiva. O debate evidencia que a identificação precisa estar acompanhada de oportunidades concretas de aprendizagem, desenvolvimento e participação.
Nas últimas décadas, a compreensão das AHSD passou por importantes transformações. A partir da segunda metade do século XX, houve significativo avanço nas pesquisas sobre o tema. Um marco foi a publicação do Relatório Marland, em 1972, elaborado a partir do trabalho de um painel consultivo sobre conceito, identificação, atendimento e prevalência das altas habilidades, exercendo influência sobre políticas públicas voltadas a esse público. Atualmente, a legislação considera, entre as características relacionadas às AHSD, potencial intelectual elevado, grande capacidade de aprendizagem, intensa curiosidade e profundo envolvimento em temas de interesse específico (BRASIL, 2026).
Essa mudança também transformou a compreensão sobre a avaliação. Identificar um estudante com AHSD não significa apenas aplicar um instrumento ou buscar confirmação diagnóstica, mas reunir diferentes fontes de informação e considerar sua singularidade. Segundo Guzzo e Lehmann (2026), a observação dos professores constitui importante etapa, pois acompanham cotidianamente as formas de aprendizagem, participação, interação e expressão. Registros pedagógicos, observações sistemáticas e instrumentos de triagem podem auxiliar na identificação de indicadores e nos encaminhamentos.
Portanto, avaliação desses estudantes precisa considerar também a trajetória de desenvolvimento, o contexto familiar, as experiências escolares, os aspectos socioemocionais e as oportunidades oferecidas pelos diferentes ambientes nos quais o estudante está inserido. Dessa forma, a avaliação deixa de assumir caráter meramente classificatório e passa a constituir uma ferramenta para compreender o estudante e subsidiar decisões educacionais.
A compreensão das AHSD também se relaciona às diferentes concepções de inteligência e desenvolvimento humano. A Concepção dos Três Anéis, de Joseph Renzulli, destaca a interação entre habilidades acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. Outras contribuições, como as teorias das Inteligências Múltiplas e da Inteligência Exitosa, reforçam que o potencial humano não pode ser reduzido a uma única medida. Compreender o desenvolvimento exige ainda considerar a relação entre características individuais e contextos familiares, sociais, culturais e educacionais, que influenciam a expressão e o desenvolvimento dos talentos.
Nesse processo, a escola ocupa lugar estratégico. É no cotidiano escolar que muitos indicadores são percebidos e surgem oportunidades para estimular interesses, ampliar desafios e promover experiências significativas. Para isso, os professores e as equipes pedagógicas precisam reconhecer diferentes formas de expressão do potencial, latente ou manifesto, evitando que esses estudantes permaneçam invisíveis nas instituições de ensino como demostra o Censo Escolar.
A identificação também demanda atuação colaborativa. Professores, gestores, familiares, psicólogos, psicopedagogos e demais profissionais possuem olhares complementares: a família contribui com informações sobre trajetória e interesses; os professores acompanham as formas de aprender, participar e interagir; e os profissionais especializados podem realizar avaliações específicas. A integração dessas perspectivas favorece uma compreensão mais completa e sensível.
No campo das políticas públicas, os estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação são reconhecidos como público-alvo da Educação Especial e possuem direito à identificação, ao atendimento adequado e a estratégias educacionais que considerem suas necessidades específicas. O registro no Censo Escolar também contribui para dar visibilidade a essa população e fortalecer políticas e recursos destinados ao atendimento especializado.
Entretanto, reconhecer o direito à identificação não é suficiente. O desafio está em transformar esse reconhecimento em práticas educacionais que favoreçam o desenvolvimento integral. O Atendimento Educacional Especializado (AEE) constitui importante estratégia para estudantes com AHSD, oferecendo oportunidades de enriquecimento curricular, aprofundamento de temas de interesse, projetos investigativos e a progressão educacional, como estabelece a legislação. Contudo, esse atendimento não deve ficar restrito a um único espaço ou profissional. A própria sala de aula pode estimular o potencial quando os professores diversificam propostas, ampliam desafios e reconhecem diferentes ritmos e formas de aprendizagem.
Em algumas situações, estratégias como flexibilização curricular e aceleração escolar podem ser consideradas possibilidades educacionais. Essas medidas, entretanto, não devem ser tomadas de maneira automática ou baseadas apenas em um resultado avaliativo. Cada decisão precisa considerar o desenvolvimento global do estudante, seus aspectos emocionais, sua maturidade, seu contexto escolar e familiar, além de ser construída de forma compartilhada entre escola, família e profissionais envolvidos.
Esse cuidado é importante porque estudantes com altas habilidades também podem apresentar necessidades socioemocionais. Apesar dos mitos que associam altas habilidades apenas a facilidades e autonomia, alguns podem enfrentar desafios relacionados ao sentimento de diferença, perfeccionismo, falta de identificação com os pares ou ausência de oportunidades adequadas. Atender esses alunos exige, portanto, um olhar que contemple capacidades e necessidades.
A identificação representa, portanto, o início de um processo que deve culminar em práticas pedagógicas capazes de promover o desenvolvimento integral. Mais do que identificar talentos, o desafio é criar ambientes nos quais possam florescer. Quando ampla e contextualizada, a avaliação deixa de ser instrumento de classificação e passa a ser ferramenta de compreensão e planejamento, permitindo construir caminhos educativos coerentes com as características individuais.
Reconhecer uma criança ou jovem com altas habilidades ou superdotação significa compreender que cada trajetória de desenvolvimento é única. O potencial não se desenvolve de forma isolada, mas nas relações estabelecidas com a família, a escola e a sociedade. Quando Psicologia, Educação e políticas públicas caminham de forma integrada, ampliam-se as possibilidades de oferecer uma educação mais sensível, inclusiva e comprometida com o desenvolvimento pleno de todos os estudantes.
A avaliação, não pode ser um fim, ou seja, a serviço a, apenas da identificação. É necessário que essa seja um meio que forneça uma compreensão do modo ser da pessoa, e uma aliada à resposta educativa, que a Educação precisa efetivar aos estudantes com altas habilidades ou superdotação.

Inês Raquel Zaniboni Guzzo – Pedagoga. Mestre em Diversidade e Inclusão pela Universidade. Psicopedagoga da Secretaria Municipal de Educação de Bom Jardim – RJ. Membro integrante da Equipe de Educação Especial da Secretaria Municipal de Nova Friburgo-RJ. Autora do livro “Teoria e Prática da Avaliação de Altas Habilidades” (Wak Editora – 2026).

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