O bullying não deve ser tratado como uma simples brincadeira entre crianças e adolescentes. A prática está relacionada a uma cultura de violência que também se manifesta nas relações familiares, escolares, sociais e, cada vez mais, no ambiente digital. O alerta foi feito por Íris Casazza, psicopedagoga, letróloga, pesquisadora de literatura infantil e juvenil e consultora pedagógica, durante uma discussão sobre o tema com o tema Bullying e Cyberbullying: por que falar disso em família, promovido pela Nova Escola de Vitória da Conquista.
Para Íris, o bullying é apenas a “ponta de um iceberg” de um problema social mais amplo. Antes de olhar exclusivamente para a criança ou o adolescente envolvido em uma situação de agressão, é necessário observar quais comportamentos a sociedade vem normalizando.
Segundo ela, expressões consideradas corriqueiras — como apelidos pejorativos, exclusão, humilhações ou comentários sobre a aparência — podem contribuir para a construção de uma cultura de violência. A especialista defende que os adultos também precisam rever comportamentos que foram incorporados ao longo das gerações.
Um dos dados apresentados por Íris durante a discussão chama atenção para a relação entre bullying e padrões estéticos. De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) citados por ela, 30,2% dos estudantes que relataram sofrer bullying apontaram a aparência do rosto ou do cabelo como motivo. Outros 24,7% relacionaram a situação à aparência do corpo e 10,6% à raça.
Para a especialista, os números revelam que parte significativa das agressões sofridas pelos estudantes está ligada às pressões estéticas e preconceitos presentes na própria sociedade.
“Quando a gente vem para dentro de uma escola, não é um laboratório de uma sociedade futura. É uma sociedade recortada”, afirmou Íris, ao defender que o ambiente escolar reproduz conflitos, diferenças e comportamentos existentes fora dele.
Conflito não é bullying
Um dos pontos destacados por Íris é a necessidade de diferenciar conflito de violência. Divergências fazem parte das relações humanas e podem ser saudáveis quando existe espaço para o diálogo e o respeito às diferenças.
“O conflito é algo extremamente saudável”, explicou. Para ela, o problema surge quando uma divergência passa a ser tratada como uma disputa na qual uma pessoa precisa impor sua vontade sobre a outra. Nesse cenário, a violência pode aparecer como uma tentativa de estabelecer uma relação de poder.
Essa diferenciação também é importante para evitar a banalização do termo bullying. Nem toda discussão, desentendimento ou comportamento inadequado configura bullying.
De acordo com a especialista, o bullying envolve uma agressão que ocorre de forma sistemática e recorrente, além de estar relacionada a uma relação de poder. Um episódio isolado pode exigir intervenção de adultos, mas não necessariamente deve ser classificado como bullying.
Não existe apenas um personagem
Outro aspecto abordado por Íris é o papel desempenhado pelas diferentes pessoas envolvidas em uma situação de bullying. Em vez de trabalhar apenas com as categorias de “agressor” e “vítima”, ela apresentou conceitos como autor, alvo, apoiador e espectador.
O apoiador, por exemplo, pode participar ou incentivar a situação por medo de se tornar o próximo alvo. Segundo Íris, pesquisas apontam o medo como um dos principais motivos para crianças e adolescentes ocuparem esse papel.
Já o espectador é aquele que presencia a situação, mas não interfere. No ambiente digital, esse comportamento pode aparecer quando alguém assiste, compartilha, curte ou ri de uma publicação ofensiva sem denunciá-la.
Para Íris, esse público também precisa ser envolvido nas estratégias de enfrentamento. A mudança não depende apenas de quem pratica ou sofre a agressão, mas de toda a comunidade.
Cyberbullying amplia o alcance da violência
No ambiente digital, o problema ganha novas dimensões. O cyberbullying mantém características semelhantes às do bullying, mas ocorre por meio de redes sociais, aplicativos e outras plataformas digitais.
Uma das principais diferenças está na capacidade de propagação do conteúdo. Uma imagem, vídeo ou mensagem publicada na internet pode ser copiada, compartilhada ou capturada por outras pessoas mesmo depois de ser apagada.
Íris também chamou atenção para um novo agravante: o uso da inteligência artificial para produzir imagens e vídeos falsos. Segundo ela, a manipulação de imagens exige que famílias e escolas discutam com crianças e adolescentes não apenas o uso da tecnologia, mas também os impactos das relações mediadas pelas telas.
Mudanças de comportamento podem servir de alerta
A especialista também orientou pais e educadores a observar mudanças no comportamento de crianças e adolescentes.
Entre os sinais mencionados estão afastamento de atividades que antes despertavam interesse, redução da comunicação com familiares, queda repentina no rendimento escolar, baixa autoestima, maior agressividade e isolamento.
Íris ressalta, porém, que esses sinais não permitem concluir, sozinhos, que uma criança esteja sofrendo bullying. O caminho, segundo ela, é estabelecer diálogo e criar condições para que o estudante se sinta seguro para falar.
Quando a criança não consegue expressar verbalmente o que está acontecendo, pode ser necessário buscar apoio especializado. Profissionais preparados podem utilizar recursos como jogos e desenhos para ajudar a criança a comunicar sentimentos e experiências.
Família e escola precisam atuar em conjunto
Para Íris, a resposta ao bullying não pode ser colocada exclusivamente sobre a escola. A família também tem papel fundamental na observação, no diálogo e no acompanhamento da vida digital dos filhos.
Ao mesmo tempo, ela alerta para a necessidade de os adultos ouvirem a criança antes de tirar conclusões ou partir imediatamente para o confronto com quem teria praticado a agressão.
“Deixa eu ouvir o que que essa criança tá falando. Deixa eu ver como isso chegou para ela”, defendeu. A orientação é acolher o relato, reconhecer o sentimento e, posteriormente, buscar a escola e os demais responsáveis para compreender a situação.
A escola, por sua vez, precisa ter protocolos claros para lidar com situações de violência, além de promover ações educativas e preventivas.
Respeito como princípio inegociável
Durante a discussão, Íris também destacou que fortalecer a autoestima e as habilidades sociais das crianças é importante, mas não substitui o enfrentamento da violência.
A criança precisa aprender a reconhecer suas próprias capacidades, desenvolver habilidades para conviver com outras pessoas e compreender que as diferenças fazem parte da vida em sociedade.
Para a especialista, o respeito precisa ocupar um lugar central nas relações.
“A gente tá falando de caminhos, escutar, sem projetar”, afirmou, ao defender que adultos, famílias e educadores aprendam a ouvir antes de interpretar ou reagir.
Íris também reforçou que crianças e adolescentes precisam aprender que o “não” do outro deve ser respeitado — assim como o próprio limite precisa ser respeitado nas relações.
Uma mudança que começa nos adultos
Ao tratar do combate ao bullying, Íris desloca parte importante da discussão para os próprios adultos. Para ela, não basta cobrar das crianças um comportamento diferente se os adultos continuam reproduzindo comparações, preconceitos, humilhações e outras formas de violência no cotidiano.
A especialista defende uma mudança cultural que envolva família, escola e sociedade.
“É a gente junto contra a cultura da violência estabelecida na nossa sociedade”, afirmou. Para ela, estimular relações baseadas no respeito e reconhecer o valor das diferenças são passos fundamentais para construir outros caminhos.
A mensagem central deixada por Íris é que o combate ao bullying não se resume a identificar quem praticou ou quem sofreu uma agressão. É necessário compreender o contexto, ouvir os envolvidos, estabelecer limites, oferecer proteção e, principalmente, questionar comportamentos que durante muito tempo foram tratados como normais.
Bullying não é uma etapa obrigatória da infância ou da adolescência. E dizer que alguém “sobreviveu” ao bullying, segundo a reflexão apresentada pela especialista, não deve ser suficiente. A escola precisa ser um espaço de proteção, convivência e aprendizagem — não um lugar onde crianças e adolescentes sejam obrigados a aprender a sobreviver à violência.
Por Júnior Patente