O que começou como um convite para algumas mulheres saírem juntas de motocicleta ganhou novos significados em Vitória da Conquista. O Acelera Divas nasceu da paixão por motos, cresceu como espaço de convivência entre mulheres e, em pouco tempo, passou a incorporar ações sociais, orientação sobre segurança no trânsito e incentivo para que outras motociclistas enfrentem medos e ocupem espaços historicamente associados aos homens.
A história foi contada por Talita Moraes, presidente do Acelera Divas, e Daniela Brandão, integrante do grupo, durante entrevista ao programa Inclusão em Foco, da Mega Rádio VCA.
Talita conta que a ideia surgiu depois de uma conversa no ambiente de trabalho, quando apareceu a proposta de mostrar nas redes sociais que mulheres também pilotam motocicletas. A sugestão inicial era reunir algumas colegas para um passeio. Talita, porém, decidiu ampliar a ideia.
Em vez de apenas uma fotografia, veio a proposta de reunir as mulheres que trabalhavam na empresa, criar uma identidade para o grupo e fazer um passeio coletivo. Surgiu então o nome Acelera Divas.
O primeiro passeio reuniu aproximadamente 22 mulheres. O destino escolhido foi Marçal, em uma experiência pensada também para aquelas que ainda tinham receio de pegar a estrada.
O grupo começou a crescer com o convite de clientes, amigas e outras motociclistas. O que era uma iniciativa restrita a colegas de trabalho ganhou as ruas, as redes sociais e novos integrantes.
A dimensão alcançada pelo projeto surpreendeu as próprias organizadoras. De um primeiro passeio com cerca de 22 participantes, o movimento chegou a reunir aproximadamente 250 mulheres em uma das atividades realizadas pelo grupo.
Para Daniela Brandão, que também participou da entrevista, o Acelera Divas teve um papel importante justamente por ajudá-la a superar o medo de pilotar fora da rotina.
Ela conta que trabalhava, voltava para casa e tinha pouca experiência em viagens de motocicleta. O incentivo de Talita foi decisivo para que começasse a participar dos passeios.
A experiência acabou se transformando em inspiração para outras mulheres.
A mensagem que Daniela procura transmitir é simples: se outra mulher consegue superar uma dificuldade, outras também podem tentar. Ela própria destaca que sua baixa estatura, em vez de ser encarada como uma limitação definitiva, tornou-se mais um desafio a ser enfrentado.
“Se eu consigo, você também consegue”, resume a ideia que passou a orientar parte do trabalho desenvolvido pelas integrantes.
Do passeio ao trabalho social
Com o crescimento do movimento, Talita decidiu que o Acelera Divas precisava ir além dos passeios de motocicleta.
A iniciativa passou a incorporar ações sociais. Em uma das primeiras mobilizações, foram arrecadadas 32 cestas básicas completas, além de outros alimentos, posteriormente destinados a casas de apoio em Vitória da Conquista.
Mais recentemente, o grupo realizou uma nova ação, desta vez com arrecadação de roupas para famílias em situação de vulnerabilidade. Segundo Talita, a quantidade arrecadada foi tão grande que o espaço utilizado para armazenar as doações ficou lotado.
A proposta é continuar utilizando a força da mobilização das motociclistas para atender demandas sociais.
Para Talita, o Acelera Divas não existe apenas para reunir mulheres apaixonadas por motocicletas. A intenção é criar uma rede em que cada participante possa também contribuir com outras pessoas.
“Tudo que é para ser meu chega até mim e tudo que é meu pode ser compartilhado”, é a filosofia que ela apresenta ao falar sobre o trabalho de incentivo às novas integrantes.
Um motoclube para mulheres
O crescimento do movimento também levou a uma nova etapa. Há cerca de dois meses, segundo Talita, foi criado oficialmente o motoclube Acelera Divas.
A organização já conta com 29 integrantes, além de outras mulheres em processo de seleção.
A criação do motoclube surgiu de uma demanda das próprias participantes, que queriam um espaço organizado exclusivamente para mulheres, no qual pudessem aprender, trocar experiências e participar das atividades sem receio.
Talita explica que muitas mulheres chegam ao grupo com medo de pilotar, principalmente em rodovias ou em locais de trânsito mais intenso. Por isso, a orientação passou a fazer parte da rotina.
O grupo mantém encontros e utiliza também os canais internos de comunicação para discutir temas relacionados à pilotagem e à segurança.
Uma das mensagens repetidas às integrantes é que não existe necessidade de transformar o trânsito em uma competição.
O objetivo é chegar ao destino com segurança, respeitando as regras de circulação e evitando comportamentos de risco.
O Acelera Divas também afirma contar com apoio do Sistema Municipal de Trânsito e Transporte (Simtrans) em ações de orientação.
Mulheres ocupando espaços
A presença feminina no motociclismo também enfrenta barreiras culturais.
Talita relata já ter ouvido comentários de que mulher não entende de motocicleta ou de mecânica. Em resposta, buscou conhecimento e chegou a iniciar um curso de mecânica para compreender melhor o funcionamento das motos e compartilhar informações com outras integrantes.
Para ela, conhecimento também é uma forma de autonomia.
A proposta do grupo, entretanto, não é criar uma disputa entre homens e mulheres. Talita destaca que não vê a vida e o motociclismo como uma competição entre gêneros.
A palavra que considera mais adequada é equidade: reconhecer que pessoas podem ter necessidades diferentes e que oportunidades precisam considerar essas diferenças.
Essa perspectiva também aparece na maneira como o grupo recebe novas motociclistas.
Não é necessário chegar ao Acelera Divas como uma piloto experiente. A proposta é justamente permitir que mulheres aprendam, pratiquem e ganhem confiança.
Talita conta que costuma ensinar aquelas que chegam com dificuldades ou insegurança. O processo começa pelo diálogo, passa pela compreensão do medo e chega à prática.
É uma lógica de aprendizagem baseada no incentivo, não na cobrança.
Inclusão também passa pelo esporte
A história do Acelera Divas se conecta a uma discussão mais ampla sobre a presença das mulheres no esporte.
Durante a entrevista, foi lembrado que a participação feminina em determinadas práticas esportivas no Brasil enfrentou restrições históricas. Ao longo das décadas, mulheres precisaram conquistar espaços que hoje parecem naturais.
No motociclismo, ainda existe a percepção cultural de que motos, velocidade e mecânica seriam assuntos predominantemente masculinos.
O Acelera Divas procura romper essa associação pela prática.
A própria trajetória de Daniela representa esse movimento. Uma mulher que inicialmente tinha receio de pegar a estrada passou a viajar de motocicleta e a participar de atividades coletivas.
O grupo também tem um sonho que vai além dos passeios: descobrir novas mulheres interessadas em transformar a paixão pelas motos em prática esportiva.
Talita cita como referência o desejo de encontrar futuras pilotos capazes de representar Vitória da Conquista e a região em competições.
Segurança antes da velocidade
A paixão por motocicletas não afasta o grupo de uma preocupação essencial: a segurança.
Talita afirma que as integrantes são orientadas a respeitar as regras de trânsito e evitar atitudes imprudentes.
A filosofia é direta: não há necessidade de correr para chegar primeiro.
Em uma cidade que convive diariamente com acidentes envolvendo motocicletas, essa postura ganha relevância. A motocicleta pode representar liberdade, mobilidade, esporte e lazer, mas exige responsabilidade.
Para as integrantes do Acelera Divas, pilotar também significa compreender os riscos e respeitar os demais usuários das vias.
A orientação é especialmente importante para quem está começando.
Reconhecimento que amplia a responsabilidade
O trabalho do grupo também recebeu reconhecimento público. O Acelera Divas foi homenageado pela Câmara Municipal de Vitória da Conquista com duas moções de aplauso, segundo as entrevistadas.
Talita e Daniela afirmam que o reconhecimento ajudou a abrir portas e aproximou novas mulheres do projeto.
Mas o que mais emociona as integrantes não é apenas a homenagem. É perceber que outras mulheres passaram a se enxergar como capazes de fazer aquilo que antes parecia distante.
O reconhecimento, nesse sentido, funciona como combustível para continuar.
Talita resume o sentimento ao explicar que o Acelera Divas nunca foi pensado apenas para ela. A proposta, segundo a presidente, é criar oportunidades para outras mulheres.
E é justamente nessa passagem que o motociclismo deixa de ser apenas uma paixão individual e passa a assumir uma dimensão coletiva.
Um convite para novas Divas
A próxima etapa já está sendo planejada.
Talita afirma que o Acelera Divas pretende realizar novos encontros ao longo do próximo ano, mantendo os passeios e ampliando as ações sociais.
Entre as possibilidades está uma nova ida a Marçal, prevista para maio, além de outro projeto programado para julho.
A pauta social também deve continuar. Para 2027, uma das ideias já discutidas pelas integrantes é arrecadar materiais escolares para crianças e famílias que enfrentam dificuldades.
Quem quiser conhecer o trabalho ou participar pode procurar o Acelera Divas pelo Instagram @aceleradivas, onde também são divulgadas as ações, encontros e campanhas.
O convite, entretanto, vai além de simplesmente colocar uma mulher sobre uma motocicleta.
É um chamado para que ela descubra que pode aprender, ocupar espaços, fazer novas amizades, praticar esporte, ajudar outras pessoas e, principalmente, não permitir que o medo determine até onde pode chegar.
O Acelera Divas nasceu de um passeio.
Hoje, carrega uma mensagem muito maior: quando uma mulher abre caminho, outras podem descobrir que também são capazes de seguir por ele.
Por Júnior Patente