jonathan

“O deslizar dos dedos pelas telas, o fascínio dos smartphones e o crescente uso da inteligência artificial têm provocado inúmeras reflexões sobre o desenvolvimento humano e sobre a própria tessitura do processo criativo. Perante esse cenário, emerge uma indagação inevitável: o que acontece com uma geração que, em grande parte, pouco explora o movimento corporal em sua plenitude, restringindo-se ao universo dos equipamentos eletrônicos e às informações que fluem incessantemente pelas telas?

Não se trata de romantizar o passado, mas de lembrar que outrora as crianças viviam experiências que não se reduziam à estaticidade de um corpo diante de uma tela. O correr livre pelas ruas ou quintais, o brincar de roda, o pular corda, o esconde-esconde, o reinventar do mundo a partir de uma caixa de papelão ou de uma bola feita de meia — tudo isso fazia parte de um cotidiano que nutria corpo, mente e imaginação. O movimento, em sua simplicidade, potencializava o desenvolvimento, alimentava a fantasia e firmava laços de pertencimento.

A infância, em sua essência criadora, tem sido silenciada pelo excesso de estímulos artificiais, impedindo que muitas crianças se permitam imaginar, sonhar e criar.

Diante dessa realidade, torna-se urgente defender, nos espaços educativos e públicos, o direito de brincar como experiência primordial da infância. O brincar entrelaça dimensões psicomotoras, cognitivas, emocionais e sociais. Ao brincar, a criança não apenas se diverte: ela descobre seu corpo, reconhece o outro, testa hipóteses, inventa mundos, elabora emoções e se expressa no mundo com autenticidade.

Mas essa tarefa não cabe apenas à escola. É fundamental que as famílias assumam também a responsabilidade de promover o brincar na primeira infância. Cantigas entoadas no colo, rodas de brincadeiras que envolvem corpo e afeto, momentos de contação de histórias que abrem portais de imaginação, que fortalece vínculos e aproxima gerações, criando uma cultura mais lúdica, inclusiva e afetuosa.

A tecnologia faz parte da vida moderna, contudo, é preciso reconhecer que, sobretudo para crianças pequenas, a eliminação precoce dos estímulos tecnológicos é essencial para que possam mergulhar em experiências genuínas. Vivências na natureza, o contato com a terra, a descoberta das cores, dos sabores, dos sons, dos traços e dos movimentos tornam-se caminhos para o florescer integral da criança.

Eis, portanto, a urgência do brincar. Brincar é tecer a infância com fios de liberdade e imaginação; é permitir que cada criança reconheça a potência do seu corpo e a vastidão de sua criatividade. É, sobretudo, assegurar que nenhuma geração se perca do direito mais humano e essencial: ser criança em plenitude”. 

“É altamente importante a atividade lúdica para a construção de um ambiente de aprendizagem em que crianças ditas como agressivas, com comportamentos apáticos e problemas de aprendizagem ressignificarem suas ações e abrirem espaço para aprender por meio do brincar. E levar as crianças a reflexão sobre suas atitudes. Observar o que elas apresentam para elaborar estratégias que resultem em ações lúdicas. Criar rotinas significativas, combinados que são possíveis de serem colocados em práticas. Rever nos momentos necessários o que foi proposto e traçar novas ações. Lidar com crianças agressivas, apáticas é compreender que elas gritam por “socorro” e a conduta agressiva é a resposta para o meio que está falhando, faltando algo que não consegue ser preenchido. Por este motivo o brincar é um caminho de possibilidade”.

“Jogos e Brincadeiras Africanas: o brincar que nasce do chão. A educação e formação para as relações étnico-raciais na perspectiva do brincar.

O brincar faz parte da cultura e, quando propiciamos um espaço brincante, ajuda crianças a desenvolver a criatividade, a ampliar a sensação de liberdade, sendo esta capaz de ser autônoma e autora de sua própria história. Por falar de história, os jogos nos conectam com os contextos sociais, os povos e as nações, logo, conhecer as suas origens e seus desdobramentos nos permitem ampliar os nossos repertórios lúdicos, culturais e africanos.

Olhar para o brincar e para as africanidades brasileiras é dizer que somos lúdicos e criativos e que todo o processo desde o movimentode contar uma história, se encantar com as narrativas, aprender comas singularidades e os pertencimentos da cultura africana nos mostramque a essência lúdica nasce do chão, do corpo,da mente, do olhar para dentro de si e se conectar e interagir com ooutro. Eis aí o caleidoscópio lúdico existindo, reexistindo e possibilitandoprocessos de interação entre um sujeito integral, até porque não somospartes isoladas, somos todos em um.

O brincar é o encorajamento diante das marcas de exclusão. É subversivo, é resistência e reexistência. Em uma favela onde o confronto e os conflitos armados acontecem todo dia (e, que atravessam a vida decrianças e jovens negros), uma criança que brinca, que ri e que se encanta está se rebelando, está demonstrando que o sistema que foi feito paramatá-la não venceu! Mesmo diante de tantas mortes que são noticiadas entre os corpos negros.

Além disso, o brincar é o estímulo para romper com as dificuldades deaprendizagem e ensinagem. O brincar é o elo de culturas, cores, sensações e sabores.”

Jonathan Aguiar – Doutor e mestre em Educação. Brinquedista. Psicopedagogo. Pedagogo.

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