23 de abril de 2026
jp na 96

A participação do jornalista Júnior Patente no programa Sudoeste Agora, da Rádio Clube FM, no último dia 20 de abril, trouxe ao centro do debate público uma questão recorrente, porém ainda pouco enfrentada na prática: a efetividade das políticas de inclusão em espaços urbanos. Criador do Portal Incluir, ele utilizou a entrevista para apontar falhas na aplicação da legislação e defender uma mudança cultural baseada no respeito às diferenças.

Durante a conversa, o jornalista destacou que, embora existam leis que garantam direitos às pessoas com deficiência, a execução ainda apresenta lacunas significativas. Um dos exemplos mais concretos citados foi a sinalização de vagas de estacionamento em Vitória da Conquista, frequentemente identificadas de forma inadequada como exclusivas para “deficientes físicos”. Segundo ele, a terminologia está ultrapassada há mais de uma década e contribui para a desinformação e, consequentemente, para situações de constrangimento.

“Minha filha tem síndrome de Down, ela não é deficiente física, mas tem o mesmo direito. Quando a placa não deixa isso claro, abre espaço para questionamentos e até abordagens agressivas”, relatou, ao relembrar episódios vividos no centro da cidade e em estabelecimentos comerciais. Em um dos casos, ele afirma ter sido confrontado por um motorista ao utilizar uma vaga preferencial, mesmo estando com a credencial obrigatória.

Para o jornalista, o problema vai além da sinalização e revela o que ele classificou como “discriminação invisível”. Trata-se de uma exclusão que não se manifesta de forma explícita, mas que se sustenta em práticas desatualizadas e na falta de informação da população. “É uma mudança simples, de nomenclatura, mas que faz diferença real na vida de milhares de pessoas”, pontuou.

A entrevista também abordou a origem e a evolução do trabalho desenvolvido por Júnior Patente. A iniciativa surgiu a partir de uma experiência pessoal, com o nascimento da filha em 2013, e inicialmente deu origem ao blog Viver Down. Com o tempo, o projeto foi ampliado e transformado no Portal Incluir, que hoje atua de forma mais abrangente, contemplando diferentes dimensões da inclusão — não apenas de pessoas com deficiência, mas também de grupos historicamente vulnerabilizados.

“O objetivo é levar informação confiável. A gente não publica nada sem respaldo, porque informação errada pode prejudicar ainda mais quem já enfrenta dificuldades”, afirmou. Ele ressaltou que o portal funciona como uma rede de apoio e orientação para famílias, muitas vezes desassistidas ou sem acesso a conteúdos qualificados sobre direitos, saúde e educação inclusiva.

Além da plataforma digital, o projeto se expandiu para o campo da comunicação, com o programa Inclusão em Foco, que reúne especialistas do Brasil e do exterior para discutir temas relacionados à inclusão. O conteúdo também é disponibilizado em plataformas digitais, ampliando o alcance das discussões.

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi o relato sobre a falta de informação enfrentada por muitas famílias. Júnior citou casos concretos em que o desconhecimento atrasou o acesso a tratamentos e acompanhamentos essenciais. Em uma das situações, uma criança com síndrome de Down só começou a receber atendimento especializado dois anos após o nascimento, evidenciando o impacto direto da desinformação no desenvolvimento.

Ao final, o jornalista fez um apelo direto aos pais e responsáveis: buscar conhecimento e não abrir mão dos direitos garantidos por lei. “Muita gente ainda não sabe o básico. E isso é preocupante. Informação é o primeiro passo para garantir dignidade”, afirmou.

A participação no programa reforça o papel da comunicação como instrumento de transformação social e amplia o alcance de uma pauta que, embora respaldada por legislação, ainda enfrenta desafios concretos para se materializar no cotidiano.

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