Muitas pessoas cresceram ouvindo que o amor verdadeiro é aquele em que um parceiro “adivinha” o que o outro sente ou precisa, mas nos relacionamentos neurodiversos, a forma de demonstrar amor e construir intimidade pode ter características diferentes.
Uma pessoa autista pode ter dificuldade para interpretar mensagens implícitas, ironias ou sinais não verbais ou uma pessoa com TDAH pode enfrentar desafios relacionados à impulsividade, à distração ou ao esquecimento de compromissos importantes. Em ambos os casos, a dificuldade nem sempre está na falta de amor ou interesse, mas na forma como a comunicação acontece.
Muitas vezes, aquilo que interpretamos como desatenção, frieza ou desinteresse pode ser apenas uma maneira diferente de processar emoções e demonstrar afeto. Da mesma forma, muitas pessoas neurodivergentes relatam sentir-se constantemente incompreendidas por não corresponderem aos modelos tradicionais de expressão emocional.
Ao mesmo tempo, os relacionamentos neurodiversos também revelam potencialidades que raramente ganham visibilidade: vínculos construídos sobre bases sólidas de autenticidade, confiança, respeito às necessidades individuais, valorização das singularidades, espaço para a comunicação clara, para o diálogo, para a previsibilidade e para o reconhecimento das singularidades de cada parceiro.
Quando existe compreensão mútua, diferenças podem deixar de ser obstáculos e se transformar em oportunidades de crescimento para ambos os parceiros. Mas como construir essa compreensão? Na minha prática como psicopedagoga, acompanhando crianças, adolescentes, famílias e educadores, aprendi que grande parte das habilidades que sustentam relacionamentos saudáveis começa a ser construída muito antes da vida adulta.
Habilidades sociais nascem nas brincadeiras compartilhadas, na maneira como lidamos nos conflitos entre irmãos, nas amizades da escola, nas conversas à mesa com a família e nas oportunidades que as crianças têm de aprender a reconhecer sentimentos, respeitar limites, lidar com frustrações e considerar diferentes perspectivas.
Por isso, quando observamos os desafios presentes em muitos relacionamentos, é importante lembrar que estamos falando de habilidades humanas que podem ser desenvolvidas ao longo da vida. Os estudos de Zilda e Almir Del Prette destacam que habilidades sociais como empatia, assertividade, escuta, resolução de conflitos e expressão adequada de sentimentos são aprendidas e podem ser fortalecidas por meio das experiências de convivência.
Estudos e programas de ensino de habilidades sociais para pessoas autistas, como os desenvolvidos pela Doutora em Educação Especial, Camila Graciela Santos Gomes, mostram que muitas competências relacionadas à comunicação e à interação social podem ser ensinadas, respeitando as características
individuais de cada pessoa. Não se trata de ensinar alguém a deixar de ser quem é, mas de ampliar repertórios para que possa construir relações mais saudáveis e significativas.
Da mesma forma, as funções executivas, conjunto de habilidades cognitivas responsáveis pelo planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, monitoramento do comportamento e autorregulação emocional, exercem papel fundamental na vida afetiva. Escutar sem interromper, controlar impulsos durante um conflito, negociar interesses diferentes, reconhecer erros e buscar soluções compartilhadas são exemplos de comportamentos que dependem diretamente dessas competências.
Talvez o maior desafio dos relacionamentos não seja encontrar alguém exatamente igual a nós, mas desenvolver a capacidade de compreender, respeitar e dialogar com quem é diferente. Nesse sentido, as habilidades sociais, socioemocionais e as funções executivas se tornam ferramentas essenciais para a construção de relações mais saudáveis, respeitosas e humanas.
Essa reflexão nos leva a uma questão fundamental: onde essas habilidades começam a ser construídas? É durante os primeiros anos de vida que aprendemos, pouco a pouco, a esperar a nossa vez, lidar com frustrações, expressar sentimentos, resolver conflitos, negociar interesses, desenvolver empatia e compreender que o outro pode pensar, sentir e agir de maneira diferente da nossa.
Por isso, é fundamental que famílias, educadores e profissionais da infância compreendam a importância de ensinar habilidades sociais, habilidades socioemocionais e funções executivas desde cedo. Não estamos preparando crianças apenas para o sucesso acadêmico, mas estamos preparando futuros adultos que construirão amizades, relacionamentos amorosos, famílias e comunidades.
Como afirmou a escritora Lya Luft, “a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira”. Talvez por isso as experiências de convivência, afeto, respeito, diálogo e pertencimento vividas nos primeiros anos tenham um impacto tão profundo na forma como aprendemos a amar, a cuidar e a nos conectar ao longo de toda a vida.
Neste Dia dos Namorados, talvez se faça necessário lembrar que existem diferentes formas de demonstrar afeto, comunicar necessidades, construir vínculos e que talvez uma das maiores lições da neurodiversidade seja justamente esta: relacionamentos saudáveis não são aqueles em que duas pessoas funcionam da mesma maneira, mas aqueles em que ambas aprendem, todos os dias, a construir pontes entre suas diferenças.
Carla Costa é pedagoga, psicopedagoga, orientadora educacional e orientadora parental, com mais de 10 anos de experiência no desenvolvimento infantil, aprendizagem e educação inclusiva. Graduada pela UFBA, com MBA em Gestão Escolar pela USP e especializações em psicopedagogia, alfabetização e inclusão, atua no apoio a famílias, escolas e profissionais da educação.
Foto: Iaô Espaço de Criação