O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ainda é cercado por mitos que atrasam o diagnóstico e comprometem o desenvolvimento de milhares de crianças. Enquanto muitos pais acreditam que a agitação, a distração constante ou a impulsividade fazem parte apenas da personalidade dos filhos, especialistas alertam que esses comportamentos podem indicar um transtorno do neurodesenvolvimento que exige avaliação profissional.
O problema é que, quando os sinais são ignorados ou confundidos com “falta de educação”, “preguiça” ou “birra”, a criança pode enfrentar dificuldades crescentes na escola, nos relacionamentos e até na saúde emocional.
A neurocientista e doutora em Psicologia Clarice Peres, especialista em TDAH e Transtorno do Espectro Autista, explica que o transtorno não é um modismo nem resultado da forma como os pais educam seus filhos.
“O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento relacionada ao funcionamento cerebral. Quando não tratado, afeta negativamente a vida da criança, do adolescente, do adulto e também de toda a família”, afirma.
Primeiros sinais costumam aparecer cedo
Embora muitas famílias só procurem ajuda quando a criança apresenta dificuldades escolares, os primeiros indícios podem surgir ainda nos primeiros anos de vida.
Segundo a especialista, normalmente a mãe é quem percebe inicialmente que o desenvolvimento do filho é diferente do de outras crianças da mesma idade. Depois, quando começa a vida escolar, os desafios ficam mais evidentes.
Entre os principais sinais estão:
dificuldade persistente de manter a atenção;
impulsividade;
hiperatividade;
dificuldade para esperar;
necessidade constante de recompensas imediatas;
esquecimento frequente;
dificuldade para seguir instruções;
problemas de organização;
mudanças bruscas de humor;
irritabilidade;
inquietação excessiva.
Esses sintomas precisam ser persistentes e provocar prejuízos na vida da criança para justificar uma investigação clínica.
Cuidado com o “diagnóstico” da internet e dos conhecidos
Um dos maiores erros cometidos pelas famílias é aceitar diagnósticos feitos por amigos, parentes ou até pelas redes sociais.
Clarice Peres reforça que somente profissionais habilitados podem confirmar a existência do transtorno.
“O diagnóstico é clínico. Nem pais, nem professores, nem vizinhos fazem diagnóstico. Eles apenas observam sinais e orientam a busca por um profissional qualificado.”
Entre os profissionais aptos para realizar a avaliação estão pediatras, neuropediatras, neurologistas, psiquiatras e psicólogos.
Quanto antes, melhor
Especialistas defendem que o diagnóstico precoce pode transformar completamente a trajetória da criança.
Com tratamento adequado, ela desenvolve estratégias para lidar com as dificuldades, melhora o rendimento escolar, fortalece a autoestima e reduz os impactos emocionais que costumam acompanhar quem passa anos sem compreender a própria condição.
“O quanto antes diagnosticar e tratar, mais fácil e mais feliz será a vida dessa criança”, destaca a pesquisadora.
Família faz diferença no tratamento
O tratamento do TDAH vai muito além dos medicamentos.
A especialista orienta que os pais valorizem os comportamentos positivos, mantenham rotinas organizadas, utilizem listas e lembretes visuais, estabeleçam regras claras e, principalmente, evitem punições baseadas apenas em críticas.
Ela também recomenda incentivar atividades esportivas, que contribuem para o desenvolvimento da atenção, da disciplina e da convivência social.
Outro ponto destacado é a alimentação. Segundo Clarice Peres, hábitos alimentares saudáveis podem fazer parte da estratégia terapêutica, reduzindo o consumo de alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar, sempre com acompanhamento de profissionais de saúde.
Escola e família precisam caminhar juntas
A comunicação constante entre pais e professores é considerada essencial para o sucesso do tratamento.
Compartilhar estratégias que funcionam em casa e adaptar práticas pedagógicas à realidade do aluno ajudam a reduzir dificuldades de aprendizagem e favorecem a inclusão escolar.
Especialistas ressaltam que crianças com TDAH não precisam apenas de mais disciplina, mas de compreensão, acolhimento e intervenções baseadas em evidências científicas.
Tratamento deve ser individualizado
Cada criança apresenta características próprias. Por isso, o tratamento pode envolver diferentes combinações de acompanhamento médico, psicoterapia, apoio psicopedagógico, terapia ocupacional e, quando indicado, medicação.
A automedicação é desaconselhada.
“O tratamento farmacológico deve ser prescrito exclusivamente por médicos e acompanhado regularmente. Cada paciente responde de forma diferente aos medicamentos”, alerta Clarice Peres.
Informação combate preconceitos
Para os especialistas, conhecer o TDAH é o primeiro passo para garantir que crianças e adolescentes tenham acesso ao diagnóstico correto, ao tratamento adequado e a uma vida com mais autonomia e qualidade.
O preconceito ainda é um dos maiores obstáculos enfrentados pelas famílias. Por isso, campanhas de conscientização e a disseminação de informações baseadas em evidências científicas continuam sendo fundamentais para que o transtorno deixe de ser tratado como falta de educação e passe a ser reconhecido como uma condição de saúde que exige acolhimento, respeito e acompanhamento especializado.
Por Júnior Patente