A inclusão de estudantes surdos na escola não pode ser reduzida à presença física dentro da sala de aula. Garantir o direito à educação significa assegurar também comunicação, acessibilidade linguística, participação, aprendizagem e condições para o exercício da cidadania.

A avaliação é do professor Edmárcio Carvalho Novais, autor do livro Surdos: Educação, Direito e Cidadania, publicado pela Wak Editora. Graduado em Pedagogia, Filosofia e Letras Libras, especialista em educação e inclusão, com ênfase na Língua Brasileira de Sinais (Libras), e doutor em Ciências Humanas, ele participou do programa Inclusão em Foco e discutiu os principais desafios enfrentados por estudantes surdos no sistema educacional brasileiro.
Para o professor, um dos pontos centrais é reconhecer a Libras como uma língua, e não como uma simples ferramenta de apoio à comunicação.
Libras é parte fundamental da formação
De acordo com Edmárcio, o contato precoce com a Libras é fundamental para o desenvolvimento da criança surda. É por meio da língua que ela pode nomear pessoas, objetos, sentimentos e ações, além de construir significados sobre aquilo que acontece ao seu redor.
A língua de sinais possui estrutura linguística própria e exerce papel central na maneira como muitas pessoas surdas compreendem e interagem com o mundo.
Por isso, o professor defende que o acesso à Libras aconteça desde os primeiros anos de vida, com participação da família e contato com outras pessoas surdas e com a comunidade surda.
Intérprete é importante, mas não basta
A presença de um intérprete de Libras em sala de aula representa um recurso importante para a acessibilidade, mas, segundo Edmárcio, não é suficiente para garantir uma educação inclusiva.
O estudante também precisa ter acesso ao Atendimento Educacional Especializado (AEE), a professores preparados e a oportunidades para desenvolver sua própria competência linguística em Libras.
Um dos problemas apontados pelo professor é que algumas crianças surdas chegam à escola sem domínio da língua de sinais. Nesses casos, interpretar para Libras um conteúdo apresentado em português não resolve, sozinho, a questão.
A criança precisa primeiro desenvolver condições linguísticas para compreender o mundo e, a partir daí, avançar no processo educacional, incluindo a aprendizagem da língua portuguesa em sua modalidade escrita.
“O aluno surdo é um aluno do professor da sala de aula. Ele não é um aluno do intérprete”, afirmou Edmárcio.
A declaração chama atenção para uma questão fundamental: a responsabilidade pedagógica continua sendo do professor regente. O intérprete atua como profissional de apoio à comunicação, mas não substitui a relação pedagógica entre professor e estudante.
Educação bilíngue precisa sair da legislação e chegar à escola
Outro ponto discutido na entrevista foi a educação bilíngue para surdos.
Edmárcio destacou os avanços no reconhecimento legal dessa modalidade de ensino, mas ressaltou que o desafio está em transformar o que está previsto nas normas em políticas públicas e práticas concretas nos municípios e nas escolas.
A educação bilíngue considera a Libras como língua de instrução e reconhece também a importância da língua portuguesa, especialmente em sua modalidade escrita.
Para o professor, essa organização permite que o processo educacional considere as especificidades linguísticas dos estudantes surdos, em vez de simplesmente adaptar para eles um modelo pensado prioritariamente para ouvintes.
Professores precisam de formação continuada
A preparação dos profissionais da educação é outro componente essencial.
Segundo Edmárcio, professores que trabalham com estudantes surdos precisam ter acesso à formação continuada, incluindo conhecimentos de Libras e compreensão sobre as características de uma experiência linguística marcada pela visualidade e pela organização espacial.
Não se trata apenas de aprender sinais isolados. O professor precisa compreender como a língua funciona e como essa dimensão linguística deve ser considerada no processo pedagógico.
A formação também pode contribuir para a elaboração de estratégias, materiais e avaliações mais acessíveis.
Família tem papel importante desde os primeiros anos
O processo de inclusão começa antes da criança chegar à escola.
Para Edmárcio, quando uma criança é identificada como surda, a família precisa receber informações que ultrapassem o acompanhamento clínico. É necessário conhecer também as possibilidades linguísticas, educacionais e sociais da criança.
O contato com a Libras, com outras crianças surdas e com adultos surdos pode oferecer referências importantes durante o desenvolvimento.
A família, portanto, tem participação direta na construção desse ambiente linguístico. Quanto mais cedo a criança tiver acesso a uma língua plenamente acessível para ela, maiores são as possibilidades de construir referências para sua comunicação e aprendizagem.
Combater o preconceito também passa pela representatividade
A associação entre surdez e incapacidade para aprender ainda é um obstáculo.
Na entrevista, Edmárcio relacionou esse preconceito ao histórico de exclusão das pessoas surdas e às restrições enfrentadas pelas línguas de sinais em diferentes períodos.
Para mudar essa percepção, a escola também precisa apresentar outras referências.
A presença de pessoas surdas em diferentes profissões e espaços sociais ajuda a romper a ideia de que a surdez determina limites para a trajetória educacional ou profissional.
Professores, pesquisadores, médicos, profissionais de diferentes áreas e estudantes surdos podem ocupar espaços de protagonismo e demonstrar, na prática, a diversidade das trajetórias possíveis.
Material didático e avaliação também precisam falar a língua da inclusão
A acessibilidade deve estar presente em todas as etapas da experiência escolar.
Materiais didáticos com recursos visuais, vídeos acessíveis e conteúdos em Libras podem facilitar o processo de aprendizagem. O mesmo vale para avaliações.
Segundo Edmárcio, o conhecimento de um estudante surdo não precisa ser medido exclusivamente por uma prova escrita em português. A Libras também pode ser utilizada como meio de expressão e demonstração do conhecimento adquirido.
A mesma preocupação deve existir nas atividades culturais e esportivas. Explicações visuais, informações antecipadas e interpretação em Libras podem facilitar a compreensão e ampliar a participação.
Falta de acessibilidade pode acompanhar a pessoa surda pela vida
Os impactos da falta de acessibilidade linguística não terminam na escola.
Durante a entrevista, Edmárcio citou a área da saúde como exemplo. A ausência de comunicação acessível pode dificultar a compreensão do diagnóstico, dos procedimentos, das orientações médicas e dos tratamentos.
Em uma consulta, por exemplo, não basta que o profissional de saúde transmita a informação a um acompanhante. A própria pessoa surda precisa ter condições de compreender o que está acontecendo com seu corpo e participar das decisões relacionadas ao seu cuidado.
A questão também aparece no mercado de trabalho. Além da comunicação, é necessário combater atitudes discriminatórias e garantir condições para que profissionais surdos possam exercer suas funções com autonomia e respeito.
Inclusão precisa significar participação
A discussão sobre educação de pessoas surdas revela que inclusão não pode ser medida apenas pelo número de estudantes matriculados.
Estar na escola é uma etapa. Participar dela, compreender o conteúdo, comunicar-se, construir relações, desenvolver autonomia e ter sua identidade linguística respeitada são dimensões igualmente importantes.
Para Edmárcio Carvalho Novais, a sociedade precisa compreender que a experiência das pessoas surdas também passa por uma forma visual e espacial de comunicação e percepção do mundo.
A escola, nesse processo, tem papel decisivo. Não apenas como espaço de transmissão de conhecimento, mas como ambiente de convivência, reconhecimento e construção de cidadania.
Mais de duas décadas depois do reconhecimento legal da Libras, o desafio continua sendo transformar o direito à língua em realidade cotidiana para crianças, adolescentes e adultos surdos.
Como resume o professor, pensar a educação de pessoas surdas exige compreender que a sociedade foi historicamente organizada a partir de uma perspectiva predominantemente ouvinte. Construir uma educação verdadeiramente inclusiva significa abrir espaço para outras formas de comunicação, aprendizagem e participação social.
A inclusão começa quando o estudante surdo deixa de ser apenas alguém que está dentro da escola e passa a ser, de fato, parte dela.
Por: Júnior Patente