A história de Jade Lie começa muito antes das competições. Adolescente com síndrome de Down, moradora de São Sebastião, no litoral de São Paulo, ela encontrou no surfe uma forma de diversão, convivência e superação. Ao longo dos anos, as ondas passaram a fazer parte da rotina da jovem e também de uma trajetória marcada por desafios e perdas.
Nascida em Florianópolis (SC), Jade mudou-se ainda criança com os pais para o litoral paulista. O contato com o surfe veio por influência do irmão mais velho, Pedro Tanaka, que a ensinou a mergulhar e posteriormente a acompanhou nas primeiras experiências sobre a prancha.
Pedro competia no surfe e Jade costumava acompanhá-lo nas competições. A relação entre os dois era próxima. Para a família, ele também representava uma referência de cuidado e segurança enquanto os pais trabalhavam.
Essa história foi interrompida durante a pandemia de Covid-19. Pedro sofreu um acidente de mergulho e morreu. A perda teve um impacto profundo sobre Jade e toda a família.
“Jade sofreu muito, porque era muito ligada ao irmão mais velho. Nele existia amor e segurança”, conta Ana Tanaka, mãe da jovem.
Durante o período de luto, o surfe acabou se tornando também uma forma de convivência e de aproximação da família. A atividade continuou presente na vida de Jade e passou a ser praticada também ao lado do padrasto, Joca, que é seu coach e mantém a escola Experiência Litoral, em São Sebastião, onde são oferecidas aulas de surfe, yoga e passeios de barco.
Uma oportunidade para representar a inclusão
A família tomou conhecimento de que a Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) havia incluído categorias voltadas a atletas com síndrome de Down, autismo e surdez em competições de Para Surfing.
Para Ana, a abertura dessas categorias representava uma oportunidade de mostrar que pessoas com síndrome de Down também poderiam ocupar as ondas e os espaços competitivos do esporte.
“Vimos a oportunidade de mostrar que é possível meninas com síndrome de Down surfar. Fiquei tão emocionada que comprei as passagens para Recife e juntei minhas economias para ir na primeira etapa. Significava muito para mim, era algo que ia além do surf performance, era a inclusão da nossa menina”, relata.
A família viajou para Recife (PE) para participar da etapa de Para Surfing na categoria Síndrome de Down. O evento, porém, foi cancelado e posteriormente remarcado para João Pessoa (PB).
Mesmo com a mudança nos planos, a viagem acabou proporcionando uma experiência inesperada.
Em Recife, a família soube da realização de uma competição local de Para Surfing promovida pela Cyclone, na Praia do Borete, em Itapojuca, Pernambuco. Mesmo sem uma categoria específica para síndrome de Down, Jade recebeu um convite para participar.
Acompanhada pelo padrasto, ela entrou no mar, surfou três ondas e recebeu um prêmio de destaque.
Não houve troféu de campeã naquela competição. Para a família, entretanto, a experiência representou uma conquista que não cabia em uma premiação.
“Esse foi seu primeiro campeonato. Não ganhou a ponto de receber um troféu, mas ganhou coragem, recebeu carinho e aplausos de muitas pessoas que nem conhecia. Se sentiu incluída naquele círculo de surfistas”, destaca Joca.
Segundo o padrasto, a experiência mostrou que a participação no esporte também pode ser medida pela alegria, pela convivência e pela superação dos próprios medos.
“Nem sempre é o troféu, mas também a alegria de viver, a superação e a forma de fazer sua mãe transbordar de felicidade nessa jornada”, acrescenta.
Para Ana, a reação da filha depois de entrar no mar foi suficiente para mostrar a dimensão daquela experiência.
“Ela se sentiu muito feliz em estar vivendo tudo aquilo, se sentiu satisfeita consigo mesma. Vimos no olhar”, conta.
Do aprendizado às competições
A relação de Jade com o surfe começou ainda na infância, quando Pedro passou a levá-la para o mar. Antes disso, ele já havia ensinado a irmã a mergulhar.
A presença do irmão nas primeiras experiências ajudou a construir uma relação afetiva com o esporte. Depois da morte de Pedro, o surfe permaneceu como uma das atividades que ajudaram a família a atravessar o período de luto.
A trajetória de Jade também acompanha uma transformação na presença de pessoas com deficiência no esporte. Modalidades tradicionalmente associadas ao alto grau de dificuldade e risco passaram, nos últimos anos, a incorporar iniciativas voltadas à participação de atletas com diferentes deficiências.
No caso do surfe, a criação de categorias específicas em competições de Para Surfing amplia a possibilidade de participação e visibilidade de atletas que historicamente tiveram menos espaço no esporte competitivo.
A história de Jade, porém, não se resume à busca por resultados. A adolescente passou a ocupar um espaço que, para sua família, representa pertencimento: o mar, a prancha e a convivência com outros surfistas.
Mais do que uma história sobre medalhas, sua trajetória mostra como o esporte pode se tornar uma experiência de autonomia, convivência e enfrentamento de medos. E, para outras famílias de pessoas com síndrome de Down ou outras deficiências, a presença de Jade nas ondas também representa uma possibilidade: a de descobrir novos caminhos, respeitando os limites, os desejos e as potencialidades de cada pessoa.
A trajetória ainda está no começo. Mas Jade já deixou uma marca importante: entrou no mar, enfrentou o desafio e encontrou, entre as ondas, um lugar onde pôde simplesmente ser uma surfista.
Por Junior Patente