Vitor Aguiar

Vitor Aguiar

A primeira infância (0-6 anos) representa uma fase determinante para o desenvolvimento humano, pois é nela que acontece a construção das nossas bases motoras, cognitivas e socioemocionais. Em crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista, alterações relacionadas à motricidade, à comunicação, interação social e o processamento sensorial podem comprometer sua independência, sua autonomia e a participação funcional na sociedade,

Nesse contexto, a estimulação psicomotora precoce apresenta-se como uma abordagem integrativa, considerando a criança em sua totalidade e compreendendo o corpo como instrumento de relação, expressão e aprendizagem. Este artigo discute a contribuição da estimulação psicomotora no desenvolvimento de crianças entre zero e seis anos de idade que foram diagnosticadas com TEA, destacando seus impactos positivos sobre funcionalidade, habilidades motoras, autorregulação emocional, comportamento, interação social e qualidade de vida. 

O desenvolvimento infantil não acontece de maneira fragmentada. Antes da criança dominar conceitos, regras sociais ou formas elaboradas de comunicação, ela experimenta o mundo através do corpo. O movimento é sua primeira linguagem, sua primeira possibilidade de interação e sua forma inicial de construir e dar significados em múltiplos contextos. O corpo não representa apenas uma estrutura biológica, mas um território onde experiências, relações e aprendizagens são construídas. Somos seres biopsicossociais.

O corpo em movimento revela a história da criança, seus desejos, suas dificuldades e suas potencialidades. No contexto do Transtorno do Espectro Autista, a intervenção psicomotora favorece a organização e a integração dos elementos psicomotores e são eles que constituem a base para o desenvolvimento funcional da criança.

Evidências científicas sobre intervenção motora precoce no TEA Nas últimas décadas, pesquisas têm demonstrado que intervenções baseadas no movimento e na atividade física podem gerar benefícios importantes para crianças com TEA. Estudos recentes apontam melhorias relacionadas às habilidades motoras fundamentais, comunicação, interação social, atenção e redução de estereotipias, ecolalias e comportamentos associados à dificuldade de autorregulação. No geral, as intervenções com exercícios físicos melhoraram significativamente as habilidades motoras fundamentais (HMF) em crianças com TEA, o que reforça a importância de programas estruturados de movimento como parte das estratégias de intervenção.

O psicomotricista não trabalha apenas com músculos, articulações ou habilidades motoras. Trabalha com uma criança que possui uma história, uma forma própria de perceber o mundo e uma maneira singular de interagir e se comunicar. A disponibilidade corporal do profissional torna-se um elemento essencial nesse processo. Antes de solicitar uma resposta motora, é necessário construir segurança, confiança e vínculo. O olhar, a presença, a escuta corporal e a capacidade de compreender as manifestações da criança fazem parte da intervenção.

Ao promover experiências corporais significativas, a psicomotricidade favorece a integração dos elementos psicomotores, além de contribuir para o desenvolvimento das funções executivas, da autorregulação, da comunicação, da interação social, da autonomia, independência e funcionalidade. Entretanto, os benefícios dessa abordagem estão diretamente relacionados à qualidade da intervenção. A estimulação psicomotora deve ser planejada a partir de uma avaliação criteriosa, respeitando o perfil neurofuncional, as características biológicas, o ritmo maturacional e as necessidades individuais de cada criança. Se trata de oferecer experiências corporais significativas, no momento oportuno, potencializando as competências já existentes e favorecendo a construção de novas habilidades de forma integrada. Mais do que favorecer a aquisição de habilidades motoras, ela possibilita que a criança construa sua relação com o próprio corpo, com o outro e com o ambiente, transformando o movimento em um instrumento de aprendizagem, comunicação, participação social e autonomia.

Por Vitor Aguiar. Profissional de Educação Física, Psicomotricista, Psicopedagogo, Especialista em TEA, Desenvolvimento Neuropsicomotor Infantil e Educação Especial e Inclusiva. Coautor do livro “Guia de Autismo. O caminhar com os corações azuis” (Wak Editora). Apresentará com Ana Rodrigues a palestra “Do zero aos cem anos: eixos importantes na construção e transmissão da afetividade” no Simpósio Afetividade e Psicomotricidade, que acontecerá no Rio de Janeiro nos dias 21 e 22 de agosto. Mais informações Simpósio Afetividade e Psicomotricidade – Presencial Rio de Janeiro – Wak Editora

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