Há 65 anos atuando em defesa dos direitos das pessoas com deficiência intelectual, transtorno do espectro autista (TEA) e doenças raras, o Instituto Jô Clemente (IJC), de São Paulo, amplia sua atuação ao incentivar o desenvolvimento de soluções inovadoras para a educação inclusiva. A iniciativa mais recente é o Prêmio Dona Jô Clemente – Legado do Saber, que reconhece projetos capazes de transformar a realidade de estudantes, professores e escolas por meio da tecnologia e da pesquisa.
Em entrevista ao programa Inclusão em Foco, a líder de Pesquisa em Educação Inclusiva do Instituto Jô Clemente, Renata Bonotto, destacou que a história da instituição começou em 1961, quando oferecer apoio às pessoas com deficiência e às suas famílias ainda era uma iniciativa rara no Brasil.
Segundo ela, o instituto nasceu com uma visão voltada para o futuro e mantém essa característica até hoje, investindo em pesquisa, inovação e desenvolvimento de soluções capazes de promover uma inclusão efetiva.
“O Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação do Instituto Jô Clemente tem justamente esse papel de olhar para os desafios atuais e futuros, aproximando conhecimento científico e práticas que possam melhorar a vida das pessoas”, explicou.
Integração entre ciência, escolas e políticas públicas
Durante a entrevista, Renata ressaltou que a construção de uma educação verdadeiramente inclusiva depende da colaboração entre pesquisadores, educadores, empreendedores e gestores públicos.
Para ela, nenhuma solução tecnológica pode ser desenvolvida de forma isolada. É necessário que professores, estudantes e especialistas participem do processo para que as ferramentas realmente atendam às necessidades existentes dentro das salas de aula.
A pesquisadora também enfatizou a importância das políticas públicas para garantir que boas iniciativas sejam sustentáveis e alcancem um número cada vez maior de estudantes.
Ela lembrou que a legislação brasileira avançou significativamente nos últimos anos, especialmente com normas que fortaleceram o direito das pessoas com deficiência à educação, mas ressaltou que ainda existem desafios para transformar esses direitos em práticas efetivas nas escolas.
Prêmio incentiva inovação na educação inclusiva
Criado pelo Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação do Instituto Jô Clemente, o Prêmio Dona Jô Clemente – Legado do Saber busca identificar pesquisadores, empreendedores e organizações que desenvolvem soluções voltadas à educação inclusiva, especialmente utilizando inteligência artificial.
Nesta primeira edição, 17 projetos foram avaliados por uma comissão formada por especialistas de diferentes áreas ligadas à educação, tecnologia, deficiência intelectual e autismo.
Os critérios de seleção consideraram a qualidade metodológica, viabilidade técnica, relevância para a educação inclusiva e potencial de impacto social.
Segundo Renata Bonotto, o que mais chamou a atenção da comissão foi a combinação entre inovação tecnológica e aplicação prática das soluções apresentadas.
Três projetos premiados
O primeiro lugar ficou com o projeto Edu Inclusivo – Todos Podem Ler e Aprender, desenvolvido pelo Instituto ABCD. A ferramenta utiliza recursos tecnológicos para apoiar os processos de alfabetização, oferecendo estratégias que auxiliam estudantes com deficiência intelectual e autismo no desenvolvimento da leitura e da escrita.
A segunda iniciativa premiada foi o aplicativo Mirimin, criado para estimular habilidades sociais e favorecer a interação entre estudantes, contribuindo para o fortalecimento do convívio escolar e do sentimento de pertencimento.
Já o terceiro projeto vencedor foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Presbiteriana Mackenzie e oferece suporte aos professores da Educação Infantil na identificação precoce de sinais relacionados ao desenvolvimento infantil, além de fornecer estratégias pedagógicas para o atendimento de crianças com necessidades específicas.
Embora atuem em áreas diferentes, os três projetos compartilham o objetivo de ampliar as oportunidades de aprendizagem e promover uma participação mais efetiva dos estudantes com deficiência na escola.
Apoio vai além da premiação
Cada projeto vencedor recebeu uma premiação de R$ 150 mil, mas, segundo o Instituto Jô Clemente, o incentivo não se limita ao recurso financeiro.
Durante os próximos 12 meses, as equipes selecionadas receberão acompanhamento técnico do Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação para aperfeiçoar suas ferramentas, ampliar o alcance das iniciativas e potencializar seu impacto social.
A expectativa é que as soluções beneficiem cada vez mais escolas, professores, estudantes e famílias, fortalecendo os processos de inclusão em diferentes regiões do país.
Inclusão como compromisso coletivo
Ao falar sobre o futuro, Renata Bonotto destacou que a educação inclusiva exige conhecimento técnico, pesquisa científica, inovação e cooperação permanente entre diferentes setores da sociedade.
Segundo ela, uma escola inclusiva beneficia não apenas estudantes com deficiência, mas todos os alunos, ao estimular práticas pedagógicas mais flexíveis, colaborativas e capazes de atender à diversidade presente nas salas de aula.
A pesquisadora concluiu reforçando que pesquisadores, universidades, empresas, organizações e educadores devem continuar investindo em soluções que aproximem ciência e prática, contribuindo para a construção de uma sociedade mais inclusiva, na qual todos tenham oportunidades reais de aprendizagem, participação e desenvolvimento.